O silêncio da sereia

Sereia é uma figura da mitologia grega que personifica o fascínio e os perigos que o mar representa. É um ser metade mulher e metade peixe capaz de enfeitiçar os marujos até se afogarem. Nos dias atuais, serve como alusão a uma mulher sensual e inatingível. Como a musa, a sereia também é uma figura imaginária, sem pés fincados na realidade. Aliás, no lugar deles, ela exibe uma cauda. Era assim que ele me via. Uma vez, chegou a dizer que meus vestidos eram bonitos, mas não valorizavam o meu corpo. Fiquei indignada porque ao relembrar seus sucessivos figurinos, me perguntei o que ele entendia de moda. Depois, me ocorreu que ele tentava me enquadrar na sua expectativa fantasiosa, enquanto eu insistia em mostrar o corpo em linhas retas. E, claro, os pés bem aderidos ao chão, os quais me garantiam autonomia sem que eu precisasse me rastejar até e por ele. O camarada era – ainda é – um marinheiro talentoso. Foi isso o que me atraiu nele. Diferente dos idólatras de musa, que preferiram o virtual, ele se arriscou um pouco mais. Porém, cuidou de usar manobras para assegurar sua salvação. Lendo um fragmento de Franz Kafka, intitulado “O Silêncio das Sereias”, vi nossa história ali retratada. Para preservar-se da sereia, Ulisses tampou os ouvidos com cera e deixou-se amarrar ao mastro. O canto da sereia a tudo traspassava, mas o moço, cheio de confiança no estratagema da cera e dos nós, navegou seguro ao encontro da criatura. Quando Ulisses a encontrou, a potente cantora não cantou, porque acreditou que a este adversário, só o silêncio poderia arrebatar. Por seu lado, o navegante não ouviu o silêncio da feiticeira porque estava tão satisfeito com a crença positiva na cera e nos laços, que ele esqueceu todo o negócio do canto. Trata-se de um desencontro patrocinado por ilusões. Foi o que aconteceu conosco. À semelhança da sereia que possuía uma arma mais terrível do que seu canto – o seu silêncio – minhas tantas despedidas, essa é só mais uma, se demonstraram pelo meu calar diante de todos os meios pelos quais ele procurou contato. Por sua vez, ele parecia tão contente com sua escolha e decisão, que seguiu achando que eu me sujeitaria a qualquer coisa, até com os farelos do tempo surrupiado da sua agenda vigiada. Mas quero voltar ao que me atraiu nele. Sem dúvida, a mesma característica dos demais que vieram antes ou depois. Seu talento com a música o fez passar de uma criação para criador. Não, ele não compõe nem escreve, longe disso. A maior sentença que digitou no mensageiro foi um “bom dia”. No entanto, tem uma habilidade de harmonizar músicas de ritmos desiguais que só ouvindo. Da mesma forma é um exímio arranjador e algumas das canções tocadas e interpretadas por ele são mais eloquentes do que a versão original. Ninguém toca e canta melhor do que ele “Ziriguidum” e “Você só me faz feliz”. Eu poderia citar muitas outras, mas essas me são sagradas. Por esse motivo, ele é mais do que um músico, é um maestro. Também tem uma memória fantástica para letras, mas é um perdido quando se trata de lançar mão de outros registros mnêmicos. Certa oportunidade eu lhe perguntei como eu fazia para sair de uma determinada região assiduamente frequentada por ele, ao que respondeu que não tinha a menor noção de onde se encontrava. Só que conseguia arrancar letras e cifras do baú quando queria me provocar. Seus improvisos chegavam a ser divertidos. Quantos olhares de ué não flagrei dos músicos e vocalistas que o acompanhavam? O que vai de encontro à outra habilidade sua, a de compreender o termômetro dos frequentadores do baile e ajustar ritmo e repertório de bate e pronto. Foi com ele que eu aprendi a diferenciar um baile comum de um baile festa. Por isso, às vezes, eu tenho umas recaídas e apareço no espaço em que ele está tocando, só para experimentar um pouco da euforia contagiante que rola no local.  Daí que ele entende que quero voltar. Lembram-se do Ulisses que colocou cera nos tímpanos? Pois é, tal e qual. Depois de quase dois anos em que não nos falamos, ainda segue meus passos nas redes sociais. Não sei se ele tem paciência pra ler esse jornal, como se expressava a respeito dos meus bilhetes. Mas o que eu posso dizer de coração é que eu o amei muito. Isso mesmo, no tempo passado. Ele não é mais a última nem a primeira pessoa em quem eu penso antes de dormir e ao acordar. Hoje, essa posição é ocupada por outro. Só vão ficar as memórias. Elas ninguém pode apagar. E tal como no imbróglio do Kafka, em que a sereia desaparece aniquilada pelo fulgor dos grandes olhos de Ulisses e ele se safa incólume, eu saio de cena levando comigo a lembrança do brilho esverdeado do olhar de um homem apaixonado que toca a sua vida pra frente apesar dos arranhões narcísicos. Fim.