Fogo e água

Ela espalhou sobre a mesa as cinco cartas da rodada de perguntas. Eram cartas promissoras, disse. Embora a da Lua sinalizasse questões interiores para as quais eu deveria atentar. Mas ficou hesitante, parecendo buscar as melhores palavras para decifrar as duas cartas que estavam mais próximas de mim. Vai surgir um homem jovem com quem você vai compartilhar … PQP! Deixei de ouvi-la. Lembrei-me dos homens que fizeram parte da minha história amorosa na fração de segundos em que fiquei muda diante da taróloga. As lembranças estão registradas no texto intitulado O Tarot. Diante do meu desconcerto, a moça refez sua leitura. Olha, apontou as duas cartas mais próximas a mim, não precisa ser necessariamente um homem mais jovem. Pode ser alguém brincalhão, por isso a figura do mancebo. Mas vai acontecer. É uma troca. Vocês têm o que ensinar e aprender um com o outro. A minha resposta foi uma lágrima solitária. Faz um ano desde a leitura das cartas. E aconteceu. Entrou no cenário um homem uns bons anos mais novo do que eu. Não é alguém brincalhão, ao contrário, é raro ele dar um sorriso. Embora seja uma figura pública, demonstra pouco gingado para lidar com a exposição. O sujeito esteve por perto quando eu me quebrei. Antes disso até. Em todas as ocasiões que eu me coloquei sob suas vistas, buscando uma espécie de proteção. Fui parar numa de suas letras de música: se te conheço bem, você não é assim, você tá com cara de choro, esquece esse cara que tá na cara, ele não é pra você.  E o gato de menos de meio século, seria? Se o nosso encontro estava escrito porque se tratava de uma troca, é uma troca de opostos. O moço tem ideologia de direita, eu sou de esquerda. Ele é da noite, eu sou do dia. Ele vive cercado de gente, eu sou avessa ao social. Ele está construindo carreira, eu encerrei a minha. Ele sabe tocar e cantar, eu sei dançar e escrever. Ele é um multi-instrumentista, eu sequer sei pra que serve um contrabaixo. Aliás, ele é ambidestro, pega o violão ou a guitarra usando ora a mão direita ora a esquerda. Seria por esse motivo que ele se apresenta tão volúvel em seus posicionamentos? Me chama e depois me manda embora. Quando estou presente, me ignora, no virtual, segue os meus passos. Diz que de longe faço falta, de perto lhe faço raiva. Mas a sua mania que me tira do sério é a de me dar o troco na mesma moeda. Vai daí que vivemos em pé de guerra, mas não conseguimos nos despedir. Não é pra menos. Ele é do signo de água, de energia proativa, eu sou de fogo, de comportamento conservador e racional. Por isso, ele me acusa de ser fria, não ter sentimento, não saber o que é o amor. Do meu lado, eu o considero emocional, sem ter pés no chão. Então, num desses acasos, eu estava lá, fruindo o teatro, quando o texto me deu um soco no estômago. Há muitos caminhos diferentes na vida, mas todos levam a um só lugar, ao amor, à união, ao todo. O caminho disso é aquilo, e o monólogo ia fazendo várias analogias. Porém a única que memorizei foi: o caminho do fogo é a água. Minha reação foi uma lágrima solitária. Eu me lembrei da moça do Tarot e o seu pronunciamento: “vai acontecer”. O que será que eu tenho para aprender e ensinar?

Imagem: Pixabay