Cupido desastrado

As musas são entidades da mitologia grega capazes de inspirar a criação artística e científica.  Não chegam a ser deusas, mas também não são plebeias. Toda mulher gostaria de ser uma musa para seu amado, inspirar seus projetos, ser o mote de suas vitórias, certo? Há controvérsias. Da minha parte, posso dizer que ser musa é uma grande fria. As aflições e a solidão que me impus por um amor desencontrado se transformaram nas minhas enrolações publicadas em rede social. Como um diário, elas iam apresentando a situação do momento: ora esperançosa ora enraivecida ora sinalizando desistência. Essas narrativas possibilitaram que durante um longo tempo eu fosse acompanhada a distância por um poeta e um cronista. Foi assim que nas tantas marés baixas do relacionamento, me achei nos versos do poeta: “hoje ela vai dançar, vai perfumada de noite, vai carregando umas dores”, uma alusão às tantas desilusões que narrei por meio das cenas de bailes. Já o cronista fazia com que eu enxergasse meu estado de alma na sua prosa: “só o reflexo azulado da tevê de companhia …vejo também uma redinha de proteção contra queda de animais, um pequeno cão, talvez um gato … classuda, a solidão mais elegante da América”. A janela que possibilitou sua visão descritiva tinha sido uma foto que eu publicara dias antes. É verdade que tudo pode não passar de imaginação, mas quem disse que o imaginário não cria realidades? Resolvi conhece-los pessoalmente. Sim, me apresentei, troquei três palavras com cada um, falei meu nome, recebi a dedicatória, não obtive nenhum sinal de reconhecimento da minha existência. Eu estivera delirando? Os avisos de que eu havia sido lembrada chegaram de forma ambígua. Um veio num verso de Demônio Colorido: “sua voz é tão suave, quando deveria ser mais arrogante, vadiando na minha cabeça, não me deixa um só instante”.  O outro escreveu em tom de reminiscência sobre o nosso começo, ele na infância de escritor e eu como a moça inocente do colegial: “quando eu vivo um momento feliz, não sei o que fazer com as mãos … penso na minha leveza quando estava no balanço do prédio na Vila das Mercês sonhando com pássaros”. O indício da lembrança revelado pelo nome do bairro onde resido. Para encurtar, aquele amor que me roubou três longos anos e rendeu tantos textos, não deu em nada. Só muita história pra lembrar. De repente, o inesperado aconteceu quando me deixei envolver por outra paixão, figura pública como o anterior. Dessa vez, a expectativa durou exatos três meses. Logo descobri o padrão de comportamento que já me era conhecido: sedução virtual e esquiva presencial. Aquele jogo foi abrindo um buraco no meu coração e agora, não mais tão inocente quanto o poeta me retratou, firmei os pés no chão para abreviar a agonia e lhe mandei uma mensagem. Nela, eu explicitava as nossas diferenças e os impedimentos. A resposta foi um lacônico “não conheço”. Meu choque demorou o tempo de eu entender que havia destruído a miragem do sujeito. A mulher por quem ele se dizia apaixonado não era aquela que se lhe apresentava com tintas reais. “Eu minto olhando nos seus olhos” foi uma direta que eu recebi através de um perfil amigo. “Para salvar a pele”, ele completou por meio de um colunista de internet. Não pude deixar de lhe expressar o meu pesar: uma pele sem alma é sobrevida, quase uma eutanásia. Acontece que o moço também tinha seus mistérios. Vim a descobrir que ele era um compositor e que a mulher cantada em suas letras, que vinham desde tempos atrás quando éramos apenas conhecidos, bem poderia ser eu. E como atraio aqueles que não conseguem assumir seu desejo, com este não seria diferente. O verso agressivo, desesperado da música pedia: “me deixa em paz, eu quero paz … eu não suporto, me deixa quieto que eu não quero confusão”. Fiquei pensando na coincidência entre os três homens, suas produções escritas e suas reações. Por que é que eles me queriam por perto no virtual e me evitavam no contato presencial? Conclui que talvez eles precisassem de uma personagem idealizada para compor seus cenários, de maneira que a minha aparição em carne e osso desconstruía seus castelos de areia. Como é conhecer a altura, ouvir o timbre da voz, perceber as rugas e a gramatura do corpo, dar com um rosto sem pintura, cabelos sem cosmética e adereços como óculos no seu modelo de inspiração? Por outro lado, se o que lhes interessava era um semblante, por que é que eles precisavam se apoiar numa figura encarnada? Como eu faço muitas perguntas e nunca obtenho respostas – a própria ilustração do discurso da histérica – fui instigada a refletir: como eu me colocava nisso tudo? Não precisei pensar muito para compreender. Era uma repetição, certamente. Mas o quê se repete? O meu encantamento por eles terem deixado de ser apenas criação para se tornarem criadores. Como eu, eles também sublimavam, faziam deslocamentos, instrumentalizavam seu desassossego transpondo-o para o ofício de escrever. Através deles eu me reencontrava comigo, Narciso no espelho da vida. O que vem bem a calhar com a máxima de outro poeta: “o amor é autossustentável”. Na minha interpretação desse aforismo, o amor independe do outro, porque o que amamos mesmo é um algo que nos é valioso e se encontra dentro do nosso íntimo e que, na maioria das vezes, desconhecemos. Ao fim, concluo que ser musa talvez seja um papel que me caiba bem, pois posso circular no imaginário de uns, me sentir amada e, ao mesmo tempo, continuar escondida nos porões do meu ser, presa aos meus grilhões de infância. Enquanto isso, eles criam versos, prosas e canções e eu escrevo essas enrolações.