Vamos de Pisadinha?

A Pisadinha é uma variação do forró moderno. Tudo o que sei sobre ela, aprendi por ouvido e com o molejo de bons parceiros. Dizem que é uma mistura do fandango gaúcho com as batidas do axé, sei lá. Sua característica é ter uma sonoridade bem marcada pela bateria com o acompanhamento frenético da sanfona. Essa combinação traz uma musicalidade que incorpora trechos mais pausados com outros de agitação total. Se é ritmo bom para coreografias de passos individuais, é bem difícil dançar com um par. Já tentei ensinar alguns homens, sem sucesso. Depende de ter ouvido pra seguir a marcação. Primeiro a gente tem que seguir a batida da bateria. O tempo entre um batuque e outro é longo, então o passo deve ser largo para o lado. No primeiro toque da baqueta se dá um passo com o pé direito, ao segundo toque, o pé esquerdo se junta ao outro. E vai se andando de lado. No repicar dos  tambores, a gente dá uma chacoalhada com os quadris que é pra ter gingado, senão fica parecendo poste andando. O segredo é requebrar neste tempo entre uma batida e outra quando entra o som da sanfona. As notas do instrumento são milesegundos mais curtas que as da bateria, dai que a gente tem de rebolar segundo as notas da sanfona, mas dentro do tempo da batida das baquetas. O resultado é bonito, gostoso, mas precisa de muita coordenação motora e auditiva. Quando a gente fica craque, já pode fazer giros. Ai que vem o drama. A maioria dos parceiros fazem o giro padrão que é de passo largo e rápido, só que pra girar na pisadinha tem-se que encaixar aquela estrutura de passos – que já é de encaixe – dentro do padrão do giro. Pra isso é preciso girar mais devagar, colocando até dois tempos da pisadinha dentro de um tempo do giro. Com todo esse esforço físico é dureza dançar mais do que três músicas. Enquanto que sozinha, já cheguei a dançar até seis canções, porque não se tem a sobrecarga de coordenar com o par. Aliás, poucas bandas tocam o ritmo dentro dos salões convencionais que frequento, falam que é preciso um baterista experiente, não sei.  Da minha parte, acho que faz diferença um tecladista bom de solo. Pra se ter uma ideia do gênero musical, é só acompanhar o hit “Se mordendo de raiva”, tocado pelos Barões da Pisadinha e pelos músicos do Xand Avião. A batida dos Barões é mais seca, metálica, já a batida dos Aviões é mais acústica. Prefiro o som e a voz do Xand por serem mais harmônicos. Ah, para os ortodoxos que estão acostumados com letras cabeça, sugiro se ligar apenas no swing. Tudo isso pra dizer que se você leva a sério a dança, mesmo a de salão, não esquenta cadeira. Num é?

A Dançarina

Se tem uma coisa que me deixa irada é homem confundir salão de baile com puteiro, principalmente se a mulher estiver sozinha, meu caso. Nem bem pus o pé no local, o camarada me convidou pra dançar. Bom, dançar é força de expressão. O sujeito não sabia o que fazer com os pés e chacoalhava o corpo feito uma britadeira. Seu braço deu a volta inteira no meu corpo com pressão de socorrista de Samu. Com meu antebraço, eu o empurrava, impedindo que ele colasse seu corpo ao meu. Parecia uma luta. Falou umas palavras ininteligíveis umas três vezes. Fiz sinal que não entendia, porque o infeliz fazia grunhidos embaixo da caixa de som. Na terceira vez, ele me dispensou no meio da música. Na seleção seguinte, outro moço me tirou. Arrocha é um ritmo aeróbico, gostoso de dançar solto, mas o tal só sabia dar dois passos pra lá e pra cá, sem sair do lugar. Tentei arrastá-lo, mas ele usava âncoras nos tornozelos. Só que sabia o que fazer pra colar o rosto no meu, outra mania que detesto. Trocar fluídos é coisa que a gente faz com quem se tem intimidade. O pobre cansou de segurar minha mão na altura, posição correta pra direcionar a dama e deslizou seu braço pra baixo. Sempre desconfio dessa manobra. Resolvi imitar a falta de tônus dele e relaxei meu corpo. Imediatamente, ele entrou em alerta, enrijecendo o dele. Ainda bem que os músicos tinham consideração e só tocavam três músicas por vez. Na hora da dança no escurinho, rejeitei uns cinco rapazes. Não sei porque, com tanta mulher dando sopa, eles resolvem se encasquetar comigo. O engraçadinho se aproximou, bêbado de dar dó. Avisei que não dançava lenta, que ele me tirasse no forró. Ele não sabia forró e nem sabia dançar, disse, mas queria dar uns passos agarradinho comigo. Então nós não vamos dançar, expliquei. Insistia no convite e diante das minhas recusas fazia biquinho de amuado. Me diga, como é que eu posso me interessar num cara desses? E olhe, ele não era de se jogar fora. E nem eu costumo ser indelicada, mas procurei o segurança com os olhos. Por fim, ele aceitou meu não. De resto, encontrei bons parceiros nas seleções seguintes. Mas o ponto alto da noite foi a camaradagem de duas mulheres. Quando entrou a dança dos passinhos com músicas de flash back, eu me alinhei ao lado de uma moça. Na segunda coreografia, que tinha giros e meio giros, ela percebeu que eu me embaraçava. Fiz menção de desistir e ela me impediu. Você consegue, acompanha comigo. E começou a marcar os passos em voz alta. Na terceira repetição, finalmente entendi os movimentos. Pensa em alguém feliz com a conquista? A coreografia seguinte também era rebuscada. Pacientemente, ela foi recitando o passos até eu pegar o jeito. Uhuuu! Agora já conheço cinco coreografias. Só falta aquela que o cowboy lidera, mas aí eu já estava à mesa curtindo meus avanços. A segunda mulher estava sentada ao meu lado. Pedi-lhe o favor de dar uma olhada nas minhas coisas quando eu fosse dançar. Não era pra ela vigiar, só ficar ligada se não sentava outra pessoa no meu lugar. Curiosamente, quando voltei de uma rodada encontrei uma moça ali. Poderia estar descansando, sei lá, mas uma abusada. Então, minha vizinha de mesa estava voltando a frequentar bailes, depois de longo tempo que estivera ausente do país. Como eu, não morava muito perto, mas gostava daqueles lugares populares. E de alto astral, completei. Sim, era melhor que ficar de pijama em casa assistindo TV. Me lembrei das últimas semanas em que, presa de uma melancolia sem fim, eu já estava de pijama e enrolada no cobertor às seis da tarde. Balancei a cabeça pra espantar os fantasmas e ganhei mais uma companheira de baile. Isso tudo enquanto caia uma chuva torrencial lá fora, que parou o tempo suficiente pra eu chegar ao carro seca, já no início de um novo dia. 

A psicanálise vai ao baile

Quero chamar a atenção para esses locais de trégua existencial que são os salões de bailes. Escondidos em um tempo que não é o presente, nem o passado, nem o futuro, eles se oferecem como um tempo-brecha, ou melhor, um entre-tempos. Como fui parar no primeiro deles e, na sequência, passei a frequentar muitos outros ao longo dos anos? Eu estava vivenciando um momento de ruptura e na ânsia de encontrar uma direção, aceitei o convite, embora eu não soubesse dançar nem tivesse espírito para farras. Costumo dizer que os salões se parecem com um cenário impressionista ao mobilizarem luz, movimento e som, porém a captura do sentido depende de quem observa. Logo, a minha versão desses espaços tem o viés da estrangeirice. Eles são, sobretudo, locais democráticos onde se mesclam sofisticação e modéstia, empregados e patrões, mundanos e religiosos, analfabetos funcionais e escolarizados, pessoas de qualquer orientação sexual e de todas as cores, um largo espectro de idades, além dos estados civis oficiais e daqueles inventados pela complexidade dos arranjos que não cabem na lei – os separados e os separados de cama, por exemplo. Os salões de baile são tidos como locais de socialização, festividade e comemoração, de flertes e encontros amorosos e, eventualmente, um espaço para dançar a dois, o que parece contraditório. O destaque final fica para os gêneros musicais e os músicos. A música lenta é conhecida por bolero, trovas românticas por sertanejo (atualmente são chamadas de sofrência), o samba e suas variações – pagode, gafieira, chorinho, samba-rock – o chá-chá-chá que, às vezes, descamba para lambada, salsa e até mesmo acordes de flamenco, a folia do arrasta-pé e do vanerão, o ritmo do contágio que atende por forró (e que somente os músicos saberiam distinguir entre xote, xaxado e baião), e com toque mais popular, o arrocha e o frenesi da pisadinha. O nome da banda que se apresenta no dia se anuncia no estandarte fixado ao fundo do palco: Life, Românticos do Caribe, Feitiço Tropical, Sem Limite, Raio X, Sonho Asul, cuja palavra “azul” ninguém estranhava que fosse escrito com “s”. As bandas são formações, muitas vezes, provisórias, quase um catado de instrumentistas e vocalistas para ganhar uns trocados enquanto não se tem ocupação melhor. Para exemplificar, estas que mencionei, já deixaram de existir. Contudo, tem aquelas cujo talento dos integrantes os leva a profissionalização, quando passam a ser seguidos pelos admiradores, salões afora. Onde eu quero chegar com essas divagações? De início, eu me sentia forasteira naqueles salões, não sabia dançar, não tinha ouvidos para aquelas músicas, não entendia de alegria, não sabia fazer aquele jogo de ver e ser vista. Contudo, foi naquela agitação que comecei a adquirir uma  nova percepção sobre mim. Saída de algum lugar entranhado tomaria forma uma personagem que eu e os outros viríamos a conhecer como “A Dançarina”, cujas vivências marcantes ficam aqui registradas.

Freud escreveu em seu artigo de 1923, O Ego e o Id, citando Georg Groddeck, que “nós somos vividos por forças desconhecidas e incontroláveis”, querendo expressar que a essência do psíquico não está situada na consciência. De forma análoga e em uma adaptação livre, gosto de pensar que nós vivemos num corpo que, apesar de ser nosso, nos é desconhecido. Pegando carona nas dicas de Freud, no texto mencionado, é um corpo que é ao mesmo tempo uma entidade de superfície (a pele) e a projeção de uma superfície (a imagem que fazemos dele). Nessas condições, a compreensão do que é ter e ser um corpo é sempre singular. De modo que me deparei com o corpo como enigma – o meu e os dos homens que abracei – quando me meti a frequentar os salões de dança.

A primeira vez foi a amiga quem despachou um conhecido seu para me entreter. De nada adiantou dizer que eu não sabia dançar, pois, como o cavalheiro afirmou, arrasta pé era arrasta pé. Os passos seguiam na lateral, um após o outro, sempre em frente. O homem tagarelava: não precisava a menina ficar nervosa, o corpo endurecia. Tinha de ir mais devagar, escutar a marcação e parar de tirar o pé do chão, ele podia pisar ou pior, tropicar e cair. Era para arrastar, ele frisava. A menina era leve, ele nem sentia, ia aprender rápido. O camarada continuou monologando durante a seleção de vinte minutos, quando, entre outras coisas, vim saber que ele tinha setenta e oito anos. Descobri que alguns homens têm o hábito de falar ou entrevistar enquanto dançam. Ocorreu-me, no entanto, que o senhorzinho falante fazia comigo o mesmo que uma mãe faz com seu bebê. Diante de um bife com olhos, expressão destituída de sentimentalismo usada pelo psicanalista Alfredo Jerusalinsky para designar o corpo do recém-nascido – impotente e descoordenado – mamãe nomeia os movimentos e reações, traçando com a palavra um contorno simbólico para alguém que é, ainda, só partes. O manhês, a língua materna, organiza o tônus muscular do infante, condição para ele se lançar ao imponderável. Com seu monólogo, o velhinho fazia o mesmo que mamãe, suas palavras organizavam meus movimentos, me dando referências externas sobre o balanço do meu corpo, algo como um banho libidinal que me tornasse narcisicamente confiante para eu experimentar a variedade de sons. Intervenções como essa me foram essenciais para que eu conseguisse, lá na frente, além de obedecer aos movimentos do par – sim, o código da dança de salão é machista – também dançar no andamento da música, o tal do ritmo que eu não sabia que tinha, mas tinha, conforme me asseguravam eles.

Em outra oportunidade, um rapaz se achegou justo na hora da interpretação lamentosa de “Choram as Rosas”, música que convidava ao abraço e ao afago. No entanto, o corpo magro que sutilmente encostou-se ao meu era absurdamente árido e falava uma linguagem desconhecida. A cadência lenta da canção não tinha o que inventar, mas nossos passos se desencontravam. Tentei umas tantas possibilidades, sem sucesso. Por fim, solicitei-lhe para parar, assumindo a responsabilidade por não conseguir acompanha-lo, ao que ele retrucou que eu estava endurecendo o corpo, dificultando a sua condução. Procurei, então, relaxar e fechando os olhos, reduzi-me a sensações, até que peguei o seu padrão rítmico. Um passo à frente, um leve balanço do tronco para trás e para frente, um passo para o lado e repetia tudo de novo, independente da marcação da canção. Apurei o olfato para sentir que do corpo aquecido emanava um odor quase imperceptível de cachaça. Num esforço torturante atravessamos cinco músicas. Naquela madrugada, acordei de súbito, o mal estar enfim aplacado, pois eu compreendi que dançáramos passos de bêbado.

A releitura que Lacan fez da obra de Freud o impeliu a introduzir a noção de gozo para uma ideia que este último vinha lapidando em “Além do Princípio do Prazer”, de 1920, isto é, a compulsão à repetição. Na concepção lacaniana, o gozo é um significante (som da palavra) que não se permite decifrar, ele se manifesta como um imperativo de realização, por isso mesmo tem um efeito libertador e apaziguador. O sintoma de um sujeito em sua repetição exaustiva é uma das principais imagens de gozo, já que é ao mesmo tempo sofrimento para o eu, e alívio para o estranho sem rosto que nos habita.  Interessa-me aqui apenas tomar o gozo como uma metáfora de uma manifestação que se impõe e surpreende pelo seu caráter de rigidez. Nada que se faça modifica esse estado de coisa, por isso mesmo ele é impeditivo da flexibilidade, da criatividade e, em última instância, de uma vida vivida. Os passos errantes de bêbado do homem, que me causaram aflição, eram a própria presentificação do gozo. Incompreensível no seu jeito de dançar e a sua revelia, ele trazia inscrito no corpo as marcas da morte em vida.

Não só de inseguranças e experiências ruins se faz uma dançarina, mas também da possibilidade de experimentar prazer com os movimentos. Eu já era quilometrada em dança quando topei com o moço que me ensinou a dançar samba puladinho. Tinha movimentos leves e uma condução firme. Nas vezes que eu acelerava, aconselhava “vá mais devagar, ouça a música”. Dizia que era fácil dançar comigo porque eu tinha equilíbrio, coisa que eu também desconhecia. Não era que nossos passos fossem harmônicos, era algo da ordem de uma composição. Ele não apontava meus desacertos, ao contrário, aproveitava-os para fazer uma nova coreografia. Quando eu fazia um giro muito aberto ele perguntava: “cadê você?” ou se eu me adiantasse nos passos, ele me travava com seu braço e pernas. É verdade que ele costumava me exaurir, como se quisesse tirar de mim a última gota de energia, mas o que eu sentia das nossas evoluções era um movimento bonito de criação. Tínhamos satisfação genuína de dançar um com o outro e, sem me monopolizar, fomos parceiros durante bastante tempo. Tenho saudade.

Na abordagem da psicanálise, o prazer tem uma matriz erótica que remonta à primeira vivência de satisfação entre o bebê e sua mãe, a qual, por não ser repetível, obrigará a criança encontrar algo para colocar no seu lugar. É o fundamento da falta, uma categoria basilar da experiência de se tornar sujeito desejante. Através de sucessivos deslocamentos e com o distanciamento que a sublimação permite, saímos todos nós, procurando esse algo perdido que operará o milagre de nos reconectar ao uno. E quando num arroubo imaginário o encontramos, damos de cara com o prazer. Nesse sentido, gosto de imaginar que o homem do puladinho, que fazia dos nossos passos uma coreografia improvisada a cada vez, me fazia chegar ao céu, uma analogia com o êxtase primordial da infância. O curioso é que, apesar de eu ter dançado esse mesmo gênero outras tantas vezes com outros parceiros, nunca mais consegui reproduzir a experiência de satisfação.

Tocar o corpo alheio num contexto em que predomina a erotização é delicado, por isso estava ressabiada quando recebi um convite para dançar ao som de chorinho, apesar de ele ter acompanhado meu fracasso performático no samba com um par anterior. Levou-me manso, mesmo o compasso exigindo rapidez. Dava para eu prever seus movimentos, no que ele explicou que dançávamos quadradinho. Eu era uma pluma e ele seria capaz de dançar comigo a noite inteira. Foi ele quem me ensinou a requebrar, por esse motivo passei a chama-lo de “Professor”. Nunca soube seu nome nem ele o meu. Até que um dia me propôs juntar os trapos. Assim, de chofre, enquanto dançávamos. Não perdi o passo, apenas sai pela tangente. Contudo, a espontaneidade que eu tinha com ele arrefeceu. Fui rareando a frequência em tê-lo como par e mudei-me para outras paragens. Senti outros corpos, deixei-me tomar em muitos abraços, permiti-me ser afagada por outras tantas mãos: atrevidas, ansiosas, exigentes, carinhosas. Aprimorei os passos e o rebolado. Voltei a encontra-lo muito tempo depois. Ele ficara meses sem dançar e achava que estava algo enferrujado, mas, segundo seu comentário, eu havia me superado, dançando ainda mais gostoso do que no início, quando eu não sabia sequer dar um requebro. Tentei ensinar-lhe alguns volteios, outra cruzada de passos, porém encontrei resistência. As pessoas iam ver e não ficaria bem para ele. Resignei-me a segui-lo na sua batida. Uma mulher dançava aquilo que seu parceiro podia, mesmo que ela soubesse mais, como eu.

Agora eu já me alçava em análises: o jeito como uma pessoa dança diz muito sobre o modo como ela toca a vida, hipótese que encontrou eco na proposição do psicanalista Antonio Quinet de que o sintoma representa o sujeito na ordem simbólica. O homem do pedido de casamento contentava-se com o passo quadradinho. Como teria dado certo com um espírito tão revolto quanto o meu, que adorava os giros intrincados que se me ofereciam como oportunidade de tocar o etéreo?

Tornei-me uma forrozeira com habilidade para acompanhar qualquer variação de passos, por outro lado, nunca entendi porque eu tinha dificuldade com o floreado, principalmente do bolero, a tal ponto de eu passar a evitar as seleções de lentas. Conclui, então, que ficando fixada no molejo do forró, eu tinha chegado naquele patamar de rigidez repetitiva do homem dos passos de bêbado. Eu havia caído na armadilha do gozo. Diante da constatação, nada melhor do que evocar uma elucubração de Jean Allouch em seu “A clínica do escrito”, que aqui utilizo em sentido figurativo: a saúde da alma “é passar para outra coisa”, ideia que, em grande medida, se alinha com o dito popular “dançar conforme a música”.

P.S. O título “A psicanálise vai ao baile” foi sugerido por Tarso de Melo, coordenador da oficina “As tramas do ensaio: da experiência ao texto” em conjunto com Reynaldo Damazio, realizada nas dependências do Sesc Avenida Paulista, entre maio-julho de 2019.

Que língua você fala?

Olhei de relance para o camarada e conclui que não podia ser ele. Jeitão largado, envelhecido, diferente do homem vivaz que conheci. E por quem me apaixonei, sofri e chorei.  Zanzei pelo salão pra sentir o gosto de dançar sem parceiro. Recusei estranhos e conhecidos. Numa dessas borboleteadas, fui brecada por um sujeito. Encarei o moço e o reconheci. Sim, era ele. Me convidou pra dançar a última música da seleção de samba. Com um gostinho de quero mais, me puxou para o salão de forró. Trocamos alguns passos ao som digital. Logo, ele me levou para o bar. Estava mesmo a fim de conversar. Tinha chegado de viagem umas horas antes e preferiu desembarcar no salão antes de visitar os filhos. Mostrou fotos da casa que estava construindo. Enorme. Ele morava nela? Não, vivia temporariamente num quarto na casa do irmão. Ele pretendia fazer negócio com aquela mansão? Não, era pra usufruto. Quem você vai levar pra morar aí? Eu não quero acabar velho e sozinho. E você, tá sozinho? Mais ou menos. Fui gostar de uma mulher casada. Não consegui deixar de sentir uma ponta de inveja por essas garotas tão especiais. Elas conseguem ter dois amores ao mesmo tempo. Poxa, com tanta mulher dando em cima de você, justo uma interditada? Sou amigo do marido dela. Ave! Ela trabalha para o meu irmão. A gente se vê com frequência. Aconteceu. Ela não larga o marido pra ficar com você? Não, ela disse que não vai descumprir a promessa de ficar ao lado dele pra sempre. Mesmo gostando de você? Ela me incentiva a arranjar uma namorada. Ele sorriu com olhar sonhador. Ela costuma deixar sua blusa embaixo do meu travesseiro pra eu sentir o cheiro dela. Ave dois! O que ela tem que fez você se apaixonar? Meu espírito de concorrência falou mais alto. Acho que eu queria saber o que ela tinha que eu não. Ela fala a minha língua. E que língua você fala? Boa pergunta. Ficamos em silêncio. Ela é simples. Bonita, porque é fundamental. E simples, como eu. A resposta à minha pergunta de anos a fio: por que não deu certo entre a gente? Pensei em lhe explicar. Eu posso ser básica, gostar de comer arroz com feijão e ovo, andar de mãos dadas pelo bairro porque o dinheiro tá curto, não esticar o olho pra marca do carro, usar roupas sem grife, frequentar espaços populares. Mas simples eu não sou. Ao contrário, sou complexa. Tenho contradições, ideias próprias, independência e autonomia. Faço planos, tenho desejos, corro atrás dos meus sonhos. E nunca faço promessas que não vou conseguir cumprir.  Mas achei que ele não ia se interessar em saber nada disso. Então, resumi. Um dia eu já fui muito apaixonada por você. Não contei o quanto de dinheiro e tempo se foram num divã. Nem que eu precisei me curar dele botando outra paixão encrencada no lugar. Ele se fez de surpreso. Por que você se interessou por mim? Ia demorar muito explicar. Talvez eu nem soubesse. Resumi de novo. Você é iluminado. Você também é. Nós dois somos iluminados, ele concluiu. Pois é, pensei comigo, com tanta luz, acabamos ofuscados. Ele me deu um abraço mais apertado. Eu levantei as mãos num aviso de stop. Eu não ia servir-lhe de consolo. Pra não cair em tentação, me lembrei que ele raramente pronunciava meu nome. Não tinha dito uma vezinha sequer naquela noite, gozado né? Soprei-lhe um beijo. Fui.

E viva a Revolução!

cymera_20161127_121559Claro que estou falando da revolução interna, aquela que vira a gente do avesso e nos faz emergir com outra narrativa a nosso respeito. Se bem que neste sábado eu tive uma ajudinha do Fidel Castro, até porque saí com a promessa de dançar um chá-chá-chá em sua homenagem. Começou que pela primeira vez eu convidei dois homens pra me levar à pista. Vá lá que antes eles tinham me dado sinais de seu interesse. Foi quando eu o vi no meio do povo. Sabe aquele moço ali contente? Já fui doente naquele homem. Aproveita pra tirar uma casquinha, ela me encorajou. Tomei fôlego e me apresentei. Fui recebida com um abraço. Bem na hora do samba. Fomos rememorar nossa parceria. Eu nunca tive um par como ele, que dança qualquer ritmo. Pude verbalizar isso quando desabamos à mesa do bar à frente de uma garrafa de água e de um antibiótico. Que nada, eu parecia uma boneca, pra onde ele puxava, eu ia. Tá bom, nós dois nos acertamos. Ele tomou jeito com a dança por indicação da terapeuta, numa época em que tinha se separado da mulher. Ela era o meu mundo, ele engatou. É mesmo? Comigo também. Numa sessão em que eu chorava o fim de um relacionamento de vinte e dois anos, a analista perguntou: o quê você gosta de fazer? Daí fui parar num salão de baile. Nisso entrou uma seleção de chá-chá-chá. Vamos lá saudar Fidel, ele convidou. O moço não passa no meu crivo ideológico. É anti comunista, anti Dilma e contra o Temer. Suspeito que é da turma do Aecim, pela naturalidade mineira. Melhor nem perguntar! A banda estava em seu melhor dia ou eu estava nas alturas, não sei. Dancei com ele, dancei por mim e por todas as causas perdidas. O fim das coisas não é de todo mal, sabe? Obriga a gente a se reinventar.

E quando eu reencontrei os ex-amores?

Marisa e Amélia_27 5 16
Tênis Club: Baile do brilho

Ela virou a primeira carta da primeira de quatro rodadas. A foice. Falou que o meu momento era de corte, de rompimento com pessoas ou situações. Era para o meu bem, esclareceu. E como que para confirmar o que a moça disse, o universo conspirou pra eu reencontrar os ex-amores, todos na mesma semana. Com o primeiro deles aconteceu no shopping.  Eu estava lá, labutando com a vaga do estacionamento quando ele arrancou o capacete e perguntou se eu não o reconhecia. Como se não tivesse se passado dois anos. Tudo o que eu consegui fazer foi lhe pedir pra me ajudar a estacionar. Ele fez um comentário ameno para minimizar minha barbeiragem. E emendou: se arrependimento matasse, ele era um homem morto. Sorri. Um sorriso melancólico de quem deixou de viver, talvez, uma boa experiência. Joguei-lhe um beijo e fui embora. Com o segundo, paixão recente, eu provoquei a trombada num local inesperado por ele. Num lance duplo, eu o vi  driblar a primeira dama e a mim. Sabe a coragem de olhar nos olhos dela e nos meus? Ele não teve. Ainda por cima, desviou-se de mim quando, por azar dele, topamos frente a frente. Escolheu o lado da principal. Senti pena dela. E raiva de mim. O outro apareceu no salão de baile. Fui alertada sobre sua presença. Sabe aquele altão que você gostava tanto? Tá aqui. Nossos olhares se reconheceram ao mesmo tempo. Ele se aproximou e me convidou pra dançar chá-chá-chá. Nosso ritmo preferido. O que eu fazia de bom? O de sempre, trabalhando e, de vez quando, dançando. E ele, o quê me contava? Continuava com suas indecisões e seus receios. Mesmo depois de todos esses anos? Pois é. Ensaiou uma crítica rasteira à presidente. Antes que eu lhe desse uma resposta atravessada, propôs que a gente acertasse a dança.  E lá fomos nós como se tivéssemos nos visto no dia anterior. Ele é do tipo que não se chateia quando eu perco o passo. Ao contrário, faz do desacerto uma nova coreografia. Me enrolei com um giro e gargalhei de alegria. Para não acabarmos desequilibrados, ele me envolveu em seus braços. Um abraço bom. Pra mim, um abraço de despedida. Enfim, eu ia poder seguir em frente. Sem ressentimento. Prometeu que dançaríamos novamente. Mas o destino não quis. Na volta pra mesa, me chegou o último. Eu já o tinha percebido na multidão, mas tinha deixado quieto. É um cara escaldado comigo, desde a época em que eu só tinha olhos para o outro. Saímos pra dançar. Sabe essa mulher ai na nossa frente? Bonitona, o quê é que tem? Outro dia eu tava parado, ela me segurou pela cintura e disse que eu mexia com ela. Opa! Só que eu falei pra ela que ela não mexia comigo. Como é que você consegue ser tão indelicado? Você tinha me visto? Tinha. Por que não se aproximou? Pra você não ter que me dizer que eu não mexia com você. Depois, nos acompanhou até a saída. Ficou me observando, sorvendo a sua água com canudinho. No alto da escadaria, meu salto enganchou numa saliência. Meu corpo se arremeteu no ar. Tive uma visão de que eu me estatelaria no patamar intermediário. No último momento, consegui me equilibrar. Quando me recompus, ele estava perto de mim, me apoiando. Eu estava bem? Só um pouco assustada. Dava pra dirigir? Dava. Que eu me cuidasse. Fiquei pensando que por duas vezes naquela noite eu tinha me desequilibrado feio. Mas foi ele quem estava do meu lado na hora da desgraça. Seria um sinal? Ah! Qual a última carta da última rodada do baralho cigano? O Peixe. Prosperidade. Esperar, né?

Quando a moda vira assunto de baile

Fonte: Vamos dançar
Fonte: Vamos dançar

Foi com ele que eu descobri que a roupa que eu uso serve como parâmetro de avaliação. Ele me convidou para o forró. Tinha passos cadenciados e um abraço firme. Que eu nem pude apreciar. Porque bem naquele momento eu tinha avistado o tal das alucinações zanzando pelo corredor.  E não é que o homem tinha dado o ar da graça justo no instante em que eu não estava por perto? Tive vontade de largar o parceiro na pista e voltar correndo pra cadeira. Só que o vocalista engatou a quinta música e eu não era de fazer desfeita. Do mesmo jeito que ele apareceu, sumiu. Pois é, eles tinham razão. O cronista, porque avisou que ele era um tipo que promete-promete-promete e não entrega. A amiga, porque disse que eu não sabia perder. E ela, porque disse que eu só repetia. O repeteco era essa história mal parada com pai. No único bendizer de mãe sobre ele, eu tinha sido uma coisinha que ele gostou muito. Mas vai ver teve medo de se responsabilizar pelo seu querer. Foi mais fácil cair no mundo. Igual ao moço lá, que escolheu rodear e não se achegar. Tudo isso eu pensei enquanto durou a seleção. Ao final, o meu par falou que não esperava que eu soubesse dançar forró. E por que não? É esse seu vestido! O que tem ele? E me olhei pra ver se não tinha nada fora do lugar. É … Ele abriu os braços e a ideia se perdeu. Foi outro camarada que jogou alguma luz na questão. Pegou minha mão e saiu saltitando pra pista ao som de músicas pra se dançar soltinho. Ele se mexia e eu ficava parada. Eu não conseguia ligar os passos dele com o ritmo que tocava. Pra sair da confusão, peguei sua mão e fiz um giro. Ele não gostou da minha iniciativa. Calma, você vai ter tempo de mostrar o seu vestido esvoaçante. Do que você tá falando? Você sabe que eu quis dançar com você só pra ver esse seu vestido vermelho ondular? Olha em volta, só dá o seu vestido! E não vai me dizer que você comprou num brechó, você tem cara de quem anda na Oscar Freire. Crendeuspai. Não entendia de dançar, não aguentava ser conduzido por mulher, sofria de ilusão de ótica, brincava fora de hora e não sabia ser galante. Lembrei-me dos conselhos que me dão pra abrir os olhos, a mente e o coração: sem chances. Mas honrei a balada com giros que permitiam o movimento do tecido. Depois o vi encantado com o vestido de outra dama, esse sim esvoaçante, em estampa juvenil. Ainda bem. Com o andar do horário, outro se aproximou anunciando que queria dançar um bolero comigo. Não era minha praia. Não tinha importância, ele iria me ensinar. Havia sido finalista de concurso de dança de salão há trinta anos com uma parceira que tinha se tornado sua esposa. Depois que ela virou estrela, ele perdeu o gosto pela dança. Queria experimentar comigo, ele tinha me observado. Eu era simpática. Ele já tinha tentado com minha amiga, ela dançava legal, só que era esnobe. Fiquei imaginando o que Rita Cristina tinha aprontado. E lá fomos nós. Lembro-me que a seleção de lentas tinha sotaque estrangeiro. Os passos floreados exigiam atenção. Tropiquei nos pés dele e cai na risada pra aliviar a minha tensão. Ele perguntou se eu estava tirando uma com a cara dele ou se eu estava me divertindo. Era melhor explicar: estava me divertindo. Quando eu soltei o corpo em seus braços eu consegui ouvir a música. E desacelerar. Eu dei a volta por ele e senti ser elevada do chão de um lado e ser passada no ar para o outro lado. Só deu tempo de cruzar as pernas e me prender no seu quadril. Tínhamos feito uma cadeirinha. Minha primeira vez, sem aviso, sem nada. Apenas a confiança de poder compor com o outro. Sem saber no que vai dar. Mais para o fim da noite, quando o forró perdeu seu tom brejeiro e resvalou para a sensualidade, eu entendi essa coisa da roupa e da composição. A vestimenta da moça que fazia coreografia à frente do palco era o que se esperava como padrão. De shortinho, top e sandália, ela ondulava seu corpo ao som de desce, e desce, e desce. Mas aí já não era mais forró de dança de salão, senão uma mistura de fitness com pancadão.  Donde as moças não precisavam de par. Muito menos de arriscar uma composição. Será que o tal moço não se sentia mais seguro diante de uma mulher com aquele estilo do que com uma que  gostava de voar acompanhada e usava vestido?