Carta para o Futuro Amor


Meu amor, antes de eu chama-lo por esse tratamento carinhoso e de você decidir-se pelo imponderável, é bom saber que apito eu toco. A bem dizer, sou ruim com notas musicais e com toda essa parte sensível da experiência humana. Dizem que estou mais para trator. É e não é. Vamos lá. Eu não sei de que lado do mundo você virá, mas uma coisa eu lhe digo: não vou viver a sua vida. Podemos fazer os nossos mundos se encontrar e tirar o melhor proveito da nossa diferença. Sim, paixão, porque uma das minhas poucas certezas é que sei que sentimos, pensamos e agimos de formas muito distintas. Saiba que eu sou uma encrenqueira oficial. Sou de escrever com letras de sangue. E você deverá estar preparado para discernir quando eu estou com a razão e quando estou fazendo espetáculo. E me ajudar. Não vim equipada com manual de instrução e, às vezes, eu me canso de mim. Mas eu espero que a recíproca não seja verdadeira, que você seja meu leme. Gosto de forrozear. Tai um negócio problemático. Quase posso adivinhar que você não sabe dançar. Não é nada pessoal. Poucos homens sabem. E pelas estatísticas é pouco provável que eu seja agraciada com a companhia de um homem, que dirá um que dance bem. Você vai ter que confiar em mim. Confiar que eu saiba diferenciar um par que se comporta como cavalheiro de outro com ares de safado. Se eu me apertar, prometo pedir socorro. Vai pintar ciúme, eu sei. Mas pense se as nossas posições fossem invertidas. Você gostaria de ser cerceado nos seus prazeres? Não vou nem disfarçar: sou muito ciumenta. Por outro lado, lhe dou um voto de confiança incondicional. Não mexo no seu celular, não ligo pra saber onde ou com quem você está, não controlo com quem você conversa nem checo a fatura do seu cartão de crédito. Mas seu eu intuir que estou sendo passada para trás, meu bem, eu lhe viro as costas pra nunca mais. Não importa o custo emocional que vai ter pra mim. Não me vingo, embora eu vá desejar, do fundo do meu coração, que o universo lhe retribua tudo o que você fez. Seja o bem ou o mal.

Vamos de Pisadinha?

A Pisadinha é uma variação do forró moderno. Tudo o que sei sobre ela, aprendi por ouvido e com o molejo de bons parceiros. Dizem que é uma mistura do fandango gaúcho com as batidas do axé, sei lá. Sua característica é ter uma sonoridade bem marcada pela bateria com o acompanhamento frenético da sanfona. Essa combinação traz uma musicalidade que incorpora trechos mais pausados com outros de agitação total. Se é ritmo bom para coreografias de passos individuais, é bem difícil dançar com um par. Já tentei ensinar alguns homens, sem sucesso. Depende de ter ouvido pra seguir a marcação. Primeiro a gente tem que seguir a batida da bateria. O tempo entre um batuque e outro é longo, então o passo deve ser largo para o lado. No primeiro toque da baqueta se dá um passo com o pé direito, ao segundo toque, o pé esquerdo se junta ao outro. E vai se andando de lado. No repicar dos  tambores, a gente dá uma chacoalhada com os quadris que é pra ter gingado, senão fica parecendo poste andando. O segredo é requebrar neste tempo entre uma batida e outra quando entra o som da sanfona. As notas do instrumento são milesegundos mais curtas que as da bateria, dai que a gente tem de rebolar segundo as notas da sanfona, mas dentro do tempo da batida das baquetas. O resultado é bonito, gostoso, mas precisa de muita coordenação motora e auditiva. Quando a gente fica craque, já pode fazer giros. Ai que vem o drama. A maioria dos parceiros fazem o giro padrão que é de passo largo e rápido, só que pra girar na pisadinha tem-se que encaixar aquela estrutura de passos – que já é de encaixe – dentro do padrão do giro. Pra isso é preciso girar mais devagar, colocando até dois tempos da pisadinha dentro de um tempo do giro. Com todo esse esforço físico é dureza dançar mais do que três músicas. Enquanto que sozinha, já cheguei a dançar até seis canções, porque não se tem a sobrecarga de coordenar com o par. Aliás, poucas bandas tocam o ritmo dentro dos salões convencionais que frequento, falam que é preciso um baterista experiente, não sei.  Da minha parte, acho que faz diferença um tecladista bom de solo. Pra se ter uma ideia do gênero musical, é só acompanhar o hit “Se mordendo de raiva”, tocado pelos Barões da Pisadinha e pelos músicos do Xand Avião. A batida dos Barões é mais seca, metálica, já a batida dos Aviões é mais acústica. Prefiro o som e a voz do Xand por serem mais harmônicos. Ah, para os ortodoxos que estão acostumados com letras cabeça, sugiro se ligar apenas no swing. Tudo isso pra dizer que se você leva a sério a dança, mesmo a de salão, não esquenta cadeira. Num é?

A Dançarina

Se tem uma coisa que me deixa irada é homem confundir salão de baile com puteiro, principalmente se a mulher estiver sozinha, meu caso. Nem bem pus o pé no local, o camarada me convidou pra dançar. Bom, dançar é força de expressão. O sujeito não sabia o que fazer com os pés e chacoalhava o corpo feito uma britadeira. Seu braço deu a volta inteira no meu corpo com pressão de socorrista de Samu. Com meu antebraço, eu o empurrava, impedindo que ele colasse seu corpo ao meu. Parecia uma luta. Falou umas palavras ininteligíveis umas três vezes. Fiz sinal que não entendia, porque o infeliz fazia grunhidos embaixo da caixa de som. Na terceira vez, ele me dispensou no meio da música. Na seleção seguinte, outro moço me tirou. Arrocha é um ritmo aeróbico, gostoso de dançar solto, mas o tal só sabia dar dois passos pra lá e pra cá, sem sair do lugar. Tentei arrastá-lo, mas ele usava âncoras nos tornozelos. Só que sabia o que fazer pra colar o rosto no meu, outra mania que detesto. Trocar fluídos é coisa que a gente faz com quem se tem intimidade. O pobre cansou de segurar minha mão na altura, posição correta pra direcionar a dama e deslizou seu braço pra baixo. Sempre desconfio dessa manobra. Resolvi imitar a falta de tônus dele e relaxei meu corpo. Imediatamente, ele entrou em alerta, enrijecendo o dele. Ainda bem que os músicos tinham consideração e só tocavam três músicas por vez. Na hora da dança no escurinho, rejeitei uns cinco rapazes. Não sei porque, com tanta mulher dando sopa, eles resolvem se encasquetar comigo. O engraçadinho se aproximou, bêbado de dar dó. Avisei que não dançava lenta, que ele me tirasse no forró. Ele não sabia forró e nem sabia dançar, disse, mas queria dar uns passos agarradinho comigo. Então nós não vamos dançar, expliquei. Insistia no convite e diante das minhas recusas fazia biquinho de amuado. Me diga, como é que eu posso me interessar num cara desses? E olhe, ele não era de se jogar fora. E nem eu costumo ser indelicada, mas procurei o segurança com os olhos. Por fim, ele aceitou meu não. De resto, encontrei bons parceiros nas seleções seguintes. Mas o ponto alto da noite foi a camaradagem de duas mulheres. Quando entrou a dança dos passinhos com músicas de flash back, eu me alinhei ao lado de uma moça. Na segunda coreografia, que tinha giros e meio giros, ela percebeu que eu me embaraçava. Fiz menção de desistir e ela me impediu. Você consegue, acompanha comigo. E começou a marcar os passos em voz alta. Na terceira repetição, finalmente entendi os movimentos. Pensa em alguém feliz com a conquista? A coreografia seguinte também era rebuscada. Pacientemente, ela foi recitando o passos até eu pegar o jeito. Uhuuu! Agora já conheço cinco coreografias. Só falta aquela que o cowboy lidera, mas aí eu já estava à mesa curtindo meus avanços. A segunda mulher estava sentada ao meu lado. Pedi-lhe o favor de dar uma olhada nas minhas coisas quando eu fosse dançar. Não era pra ela vigiar, só ficar ligada se não sentava outra pessoa no meu lugar. Curiosamente, quando voltei de uma rodada encontrei uma moça ali. Poderia estar descansando, sei lá, mas uma abusada. Então, minha vizinha de mesa estava voltando a frequentar bailes, depois de longo tempo que estivera ausente do país. Como eu, não morava muito perto, mas gostava daqueles lugares populares. E de alto astral, completei. Sim, era melhor que ficar de pijama em casa assistindo TV. Me lembrei das últimas semanas em que, presa de uma melancolia sem fim, eu já estava de pijama e enrolada no cobertor às seis da tarde. Balancei a cabeça pra espantar os fantasmas e ganhei mais uma companheira de baile. Isso tudo enquanto caia uma chuva torrencial lá fora, que parou o tempo suficiente pra eu chegar ao carro seca, já no início de um novo dia.