Religião, futebol e política acabam com o relacionamento?

Comício pelas “Diretas Já” em 1984 no Vale do Anhangabaú, São Paulo.
Fonte: Folha – UOL

Ele sempre achou que eu me envolvia com todo homem com quem eu dançava. Mal sabia ele que o problema era outro. Uma questão de currículo. Sim, caso contrário, eu já teria saído da lista das encalhadas há anos com o meu vizinho single, saradão e que tem a mesma idade que eu. Só que o camarada é daqueles que frequenta missa semanal e que vi se enrolar na bandeira brasileira, num domingo qualquer, para participar de uma manifestação do movimento brasil livre. E ainda por cima, me convidar. Sem chances. Também tem jeito de torcer pro Palmeiras, o que seria o de menos. Por isso, com o amor contemporâneo, resolvi tatear no escuro. Começamos pela religião. Fiquei com a impressão de que era evangélico, porque quando lhe contei que eu tinha perdido o voo para Angola, ele me consolou. Era um livramento. Do lado dele, a preocupação era genuína. Ao nos encontrarmos pela primeira vez, perguntou: você acredita em Deus? Lembrei do voto perdido no Fernando Henrique Cardoso porque o infeliz se declarou ateu nas vésperas das eleições. Não sou religiosa, contemporizei. O que não deixa de ser verdadeiro. As amigas costumam gozar. Nunca viram uma ateia que tem medo de mexer em despacho de umbanda. Já o amigo diz estar pra ver uma lacaniana acreditar em astrologia. Crenças a parte, quem sabe a gente pudesse contornar a questão da religiosidade? Sobre futebol, ele ficou aliviado. Disparou ao microfone um ah, ela é corinthiana! Eu comemorava o título do Corinthians mais por euforia e por querer me apresentar popular, do que por interesse em futebol.  Minha família toda é corinthiana. Meu tio-avô foi roupeiro do time. Passei a infância atravessando a pinguela sobre o Tietê que ligava a Vila Maria ao Parque São Jorge. No mínimo, devo respeito. Mas a sua ideologia política, ele manteve em segredo.  Eu queria acreditar que um nordestino que teve uma vida difícil não faria apologia à ditadura. Embora, no domingo do impechemente da Presidente, eu estivesse no salão de baile, rodeada por nordestinos batalhadores que comemoraram a derrota dela exibida no telão. Talvez ele soubesse que eu sou uma pacifista que, contraditoriamente, apoia a luta de classes. Talvez, não. Porque um dia desses, entre os vídeos que ele me enviou, o último era uma sátira desrespeitosa envolvendo o ex-presidente e a presidente deposta. Fui malcriada na resposta. Talvez ele seja um reacionário não assumido. Algumas coisas eu relevo, agora, posicionamento político de direita, não.  Já pensou eu dormindo com o inimigo?