E viva a Revolução!

cymera_20161127_121559Claro que estou falando da revolução interna, aquela que vira a gente do avesso e nos faz emergir com outra narrativa a nosso respeito. Se bem que neste sábado eu tive uma ajudinha do Fidel Castro, até porque saí com a promessa de dançar um chá-chá-chá em sua homenagem. Começou que pela primeira vez eu convidei dois homens pra me levar à pista. Vá lá que antes eles tinham me dado sinais de seu interesse. Foi quando eu o vi no meio do povo. Sabe aquele moço ali contente? Já fui doente naquele homem. Aproveita pra tirar uma casquinha, ela me encorajou. Tomei fôlego e me apresentei. Fui recebida com um abraço. Bem na hora do samba. Fomos rememorar nossa parceria. Eu nunca tive um par como ele, que dança qualquer ritmo. Pude verbalizar isso quando desabamos à mesa do bar à frente de uma garrafa de água e de um antibiótico. Que nada, eu parecia uma boneca, pra onde ele puxava, eu ia. Tá bom, nós dois nos acertamos. Ele tomou jeito com a dança por indicação da terapeuta, numa época em que tinha se separado da mulher. Ela era o meu mundo, ele engatou. É mesmo? Comigo também. Numa sessão em que eu chorava o fim de um relacionamento de vinte e dois anos, a analista perguntou: o quê você gosta de fazer? Daí fui parar num salão de baile. Nisso entrou uma seleção de chá-chá-chá. Vamos lá saudar Fidel, ele convidou. O moço não passa no meu crivo ideológico. É anti comunista, anti Dilma e contra o Temer. Suspeito que é da turma do Aecim, pela naturalidade mineira. Melhor nem perguntar! A banda estava em seu melhor dia ou eu estava nas alturas, não sei. Dancei com ele, dancei por mim e por todas as causas perdidas. O fim das coisas não é de todo mal, sabe? Obriga a gente a se reinventar.

Oba, a professora chegou!

20161101_134611Não me é fácil estar às sete horas da matina com meus miolos funcionando. Imagino, então, o esforço que aquelas crianças fazem todo santo dia pra aprender esse negócio de ler e escrever num horário tão ingrato. Sou recebida na classe com um “oba, a professora chegou!”. Na real, estou analisando o raciocínio que as crianças fazem a partir dos exercícios que a professora oferta. Eles são os “atrasildos” de um terceiro ano do ensino fundamental e estão reunidos numa turma de apoio à aprendizagem. Algumas meninas, a maioria meninos. Logo, um deles me puxa para o seu grupo. Umas oito crianças. Enquanto eu peço a leitura de um, o outro passa sua folha por sobre as cabeças pra eu conferir a lição, marco o que está errado e devolvo pra correção; outro dá um cutucão no colega do lado. Pô cara, já sei porque cê tá com o braço engessado, em vez de ocê falar com a boca, cê fala com o corpo. Acerta aí a separação da palavra comadre porque cê grudou o dre com a outra palavra. Não, não vale copiar (eu já estava na outra ponta do grupo), vou é te ditar. E haja paciência até ela descobrir como se escreve “es” de escorregador. O menino que me levou para o grupo foi me buscar na última carteira. Vem vê se eu acertei tudo. Ó, eu te ajudei muito, vou te dar uma estrela e meia de três que vale a lição. E desenhei com caneta. Instalou-se o alvoroço. Todos eles queriam estrelas. Ela achou que merecia três estrelinhas. Pela ajuda que eu dei a ela, negociei duas e meia. Prô, prô, ele tá se dando quatro estrelas, o do braço quebrado dedurou. Ah, então você tá fraudando a nota que eu te dei? Fraudando? Que qué isso? É de fraude, roubar no resultado. Ha, ha, ele tá fraudando! É … meia fraude, porque ele fez as estrelas à lápis ao lado das estrelas que eu fiz com caneta. Ele tem juízo, deixa pistas pra gente saber que a nota dele não tá certa. No final, o da fraude desenhou quatorze estrelas, fez dois exercícios enooooormes, pediu pra ir ao banheiro três vezes e nem ligou em se apressar pra aula de educação física. Duas horas depois eu estava esbodegada. Porém, feliz. E isso porque eu só estava com oito crianças e as duas outras professoras cada uma com um grupo. E depois ainda acham que um professor sozinho pode alfabetizar uma turma de trinta e duas crianças de uma vez só. Vai lá ver se você consegue, tá bom?

Adianta fazer promessa para atrair alma gêmea?

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Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, Salvador, Bahia

Nós que fazemos carreira solo, como diz uma amiga, ou que fomos abençoadas com um livramento, segundo outra, estamos ferradas. E não é porque fazemos promessa pra santo errado, conforme sugere o historiador especialista em religiões. Depois desse aviso comecei a prestar atenção nos milagreiros; nem assim. Também não é por falta de fazer pacto com São José, deixando de comer por um ano a fruta que eu mais gosto, achando que algum tipo de renúncia vai sensibilizar o ente celestial. Tampouco por não ter amarrado uma fitinha com três nós nas grades da Igreja de Nosso Senhor do Bonfim; parece  que diante de tantos pedidos sofridos e urgentes, o Nosso Senhor faz uma triagem. Nem por deixar de ter feito o mesmo único pedido, economizando dois, naquela via sacra que eu fiz por todas as igrejas das cidades históricas mineiras. Apesar de eu ter me ajoelhado na Basílica do Bom Jesus de Matosinhos que abriga os 12 profetas esculpidos em pedra sabão por Aleijadinho e, claro, na Igreja de São Francisco de Assis da Pampulha, obra de Niemeyer. Acho que o Santíssimo sabe identificar uma reza sem convicção. Pois então, só sobra apelar para a esfera terrena, onde o negócio é tão ou mais complicado para nós, as avulsas. Cheguei a essa conclusão depois de analisar uns tantos panoramas. Numa foto de excursão pela  África do Sul, organizada por uma agência de viagens para solteiros, eu contei quatorze mulheres, o único homem era o guia. Nos salões de bailes, três quartos dos frequentadores são mulheres. O um quarto de homens se divide em três tipos: os casadíssimos, aqueles que têm uma primeira e segunda damas e, ainda assim, ficam pipocando por aí; os separados, os que vivem sob o mesmo teto, mas em camas distintas e os solteiros que, por conseguirem se firmar em seu status no meio de uma diversidade tipológica de moças, logo coloco em suspeição. No meio mais intelectualizado, as mulheres são maioria. Recentemente, numa palestra, eu desviei os olhos da conferencista e os passei pela plateia para constatar a predominância feminina. Até o grupo de estudos não escapa dessa pegada: apenas dois dos seus quinze membros são homens e com estado civil de ocupados. Temos assim duas variáveis: um número maior de mulheres em tudo que é canto e um número desproporcionalmente inferior de homens, dentre os quais a maioria é carta fora do baralho. Como é que com tal cenário a gente vai encontrar a alma gêmea, como dizem por aí? Não é de hoje que essa equação me desconcerta. Tenho a minha hipótese. Acho que tem mais mulheres no mundo por uma lei evolucionista de manutenção da espécie humana. Enquanto os homens podem ter várias crias ao mesmo tempo, nós só podemos ter uma de cada vez. Essa lógica biológica parece que se transmutou em ordenamento cultural. E já que enveredei pela  lei da evolução, a qual também implica em seleção, será que tem algum curso por aí que ensine a gente a se sair bem em bola dividida?