Quando a moda vira assunto de baile

Fonte: Vamos dançar
Fonte: Vamos dançar

Foi com ele que eu descobri que a roupa que eu uso serve como parâmetro de avaliação. Ele me convidou para o forró. Tinha passos cadenciados e um abraço firme. Que eu nem pude apreciar. Porque bem naquele momento eu tinha avistado o tal das alucinações zanzando pelo corredor.  E não é que o homem tinha dado o ar da graça justo no instante em que eu não estava por perto? Tive vontade de largar o parceiro na pista e voltar correndo pra cadeira. Só que o vocalista engatou a quinta música e eu não era de fazer desfeita. Do mesmo jeito que ele apareceu, sumiu. Pois é, eles tinham razão. O cronista, porque avisou que ele era um tipo que promete-promete-promete e não entrega. A amiga, porque disse que eu não sabia perder. E ela, porque disse que eu só repetia. O repeteco era essa história mal parada com pai. No único bendizer de mãe sobre ele, eu tinha sido uma coisinha que ele gostou muito. Mas vai ver teve medo de se responsabilizar pelo seu querer. Foi mais fácil cair no mundo. Igual ao moço lá, que escolheu rodear e não se achegar. Tudo isso eu pensei enquanto durou a seleção. Ao final, o meu par falou que não esperava que eu soubesse dançar forró. E por que não? É esse seu vestido! O que tem ele? E me olhei pra ver se não tinha nada fora do lugar. É … Ele abriu os braços e a ideia se perdeu. Foi outro camarada que jogou alguma luz na questão. Pegou minha mão e saiu saltitando pra pista ao som de músicas pra se dançar soltinho. Ele se mexia e eu ficava parada. Eu não conseguia ligar os passos dele com o ritmo que tocava. Pra sair da confusão, peguei sua mão e fiz um giro. Ele não gostou da minha iniciativa. Calma, você vai ter tempo de mostrar o seu vestido esvoaçante. Do que você tá falando? Você sabe que eu quis dançar com você só pra ver esse seu vestido vermelho ondular? Olha em volta, só dá o seu vestido! E não vai me dizer que você comprou num brechó, você tem cara de quem anda na Oscar Freire. Crendeuspai. Não entendia de dançar, não aguentava ser conduzido por mulher, sofria de ilusão de ótica, brincava fora de hora e não sabia ser galante. Lembrei-me dos conselhos que me dão pra abrir os olhos, a mente e o coração: sem chances. Mas honrei a balada com giros que permitiam o movimento do tecido. Depois o vi encantado com o vestido de outra dama, esse sim esvoaçante, em estampa juvenil. Ainda bem. Com o andar do horário, outro se aproximou anunciando que queria dançar um bolero comigo. Não era minha praia. Não tinha importância, ele iria me ensinar. Havia sido finalista de concurso de dança de salão há trinta anos com uma parceira que tinha se tornado sua esposa. Depois que ela virou estrela, ele perdeu o gosto pela dança. Queria experimentar comigo, ele tinha me observado. Eu era simpática. Ele já tinha tentado com minha amiga, ela dançava legal, só que era esnobe. Fiquei imaginando o que Rita Cristina tinha aprontado. E lá fomos nós. Lembro-me que a seleção de lentas tinha sotaque estrangeiro. Os passos floreados exigiam atenção. Tropiquei nos pés dele e cai na risada pra aliviar a minha tensão. Ele perguntou se eu estava tirando uma com a cara dele ou se eu estava me divertindo. Era melhor explicar: estava me divertindo. Quando eu soltei o corpo em seus braços eu consegui ouvir a música. E desacelerar. Eu dei a volta por ele e senti ser elevada do chão de um lado e ser passada no ar para o outro lado. Só deu tempo de cruzar as pernas e me prender no seu quadril. Tínhamos feito uma cadeirinha. Minha primeira vez, sem aviso, sem nada. Apenas a confiança de poder compor com o outro. Sem saber no que vai dar. Mais para o fim da noite, quando o forró perdeu seu tom brejeiro e resvalou para a sensualidade, eu entendi essa coisa da roupa e da composição. A vestimenta da moça que fazia coreografia à frente do palco era o que se esperava como padrão. De shortinho, top e sandália, ela ondulava seu corpo ao som de desce, e desce, e desce. Mas aí já não era mais forró de dança de salão, senão uma mistura de fitness com pancadão.  Donde as moças não precisavam de par. Muito menos de arriscar uma composição. Será que o tal moço não se sentia mais seguro diante de uma mulher com aquele estilo do que com uma que  gostava de voar acompanhada e usava vestido?

O doce sabor da vingança

Tamoyo 19-05-13Eu me vinguei do homem no homem errado. O negócio começou uns dias antes, quando eu entrei naquele outro salão de forró e só forró. Em pé, eu olhava para o povaréu. O Criador tinha resolvido abrir a porta do inferno. Um batalhão de mulheres se espalhava próximo à parede e assim como eu, esperava pra ser convidada pra dançar. Não dei três passos e ele esticou a mão e me levou para o centro da roda. Que não cabia mais ninguém nem tinha oxigênio suficiente e o que tinha estava próximo da combustão. Quase aconselhei meu par a tirar a blusa de lã fechada até em cima, pra prevenir piripaques. Desisti. Enquanto o tecido pinicava minha pele eu o desculpava pelo seu jeito de sem teto: aquele que traz todas as roupas no próprio corpo. Mas de xote, baião, arrocha ou o que fosse, ele não entendia nada. Consegui carrega-lo entre o furdunço por umas três músicas, quando eu fixei seu olhar: esgazeado. Meu, acho melhor a gente parar. Nem precisei terminar minha fala, ele me largou ali mesmo. Decidi continuar dançando sozinha na beirada. Que nada. Dei mais três passos e outro camarada me puxou.  Não era meu dia de sorte com as vestes dos parceiros. Aquele usava um camisão de mangas compridas na cor verde limão fosforescente. Tá bom que eu queria chamar a atenção de quem estava metido lá em cima, caso ele não tivesse me avistado na multidão, mas os deuses  não precisavam exagerar. Era só seguir o verde se movendo pra saber onde eu estava. Só que o cara dançava e mais do que isso, voava. Não sei como, mas os outros casais conseguiam abrir espaço pra gente passar volteando. Contando desde o primeiro par, acho que já era a quinta música que eu seguia no embalo. Pedi arrego no começo de Flores em Vida em ritmo de forró que eu pressentia ser uma homenagem para mim. Baseado nas suas impressões imediatas, o da camisa fosforescente aventou a hipótese de eu dançar samba muito bem. Se eu dançava bem, eu não sabia, só sabia que dançava. Encontrei com ele no salão nobre quando corria a segunda música de uma seleção de sambas. Melhor assim, eu não teria aguentado o tranco. Pagode puladinho é difícil de acertar de primeira. Com ele a sensação foi como se fôssemos velhos conhecidos. Acho que foi isso que o fez me seguir de volta para o salão do forró, bem no momento em que eu pretendia abalroar quem voltava do intervalo. Ele postou-se ao meu lado à entrada. E insistiu que fôssemos dançar ao som gravado. Calma moço, espera o pessoal da banda voltar, só falta um. Mas agora a pista tá vazia! Tasquei um argumento furado: era melhor com o conjunto. Justo ai eu vi quem eu esperava para lhe fazer uma pergunta. Só o que consegui foi um cumprimento de mãos e um meio sorriso.  A brevidade do encontro não impediu que eu captasse o olhar pouco amistoso entre os dois homens. E não registrei o perigo. Voltamos a dançar e o camaradinha me aporrinhando porque queria que eu fizesse passo de pagode em xaxado. Que requebrasse e ainda por cima girasse dentro da marcação. Enquanto isso, ele só tinha que administrar meus braços. Envolta pela frente, não conseguia imitar os passos. Tentei de lado, era mais fácil, só que quando eu o enlaçava, perdia o ritmo. Tive a ideia de dar-lhe as costas para sincronizar nossos passos. Sem que eu previsse, ele esboçou um movimento de me encoxar por trás. Nada que fosse ofensivo. Mas bem à vista do moço que eu tinha esperado pra cumprimentar. Rápido de gatilho, o recado era cristalino: era pra ele que eu estava disponível. Me livrei do fosforescente logo depois, mas o estrago já estava feito. Ontem, no outro salão, o senhorzinho me convidou pra dançar pela segunda vez. Eu já tinha recusado na primeira. Com ele eu tenho um pé atrás. Justo no forró. A música correndo animada e ele com passinho trancado. Não deu outra. Tudo o que eu não tinha conseguido fazer com o da camisa verde, eu treinei com este aqui. Senti o seu cansaço, mas ele não reclamou. Ao final, me disse que dançou maneiro pra não ficar sem fôlego.  Sei. E com tanta mulher no salão que poderia ter lhe poupado a pressão alta, foi se engraçar comigo, não é? Bem feito. Não é que aprendi mais um estilo de dançar xaxado?