É muita função, baby!

Quando a gente não dança, cuida da vida alheia. Eu a tinha visto na2015-10-19 13.24.41 pista, enrolada no camaradinha. Sentada ao lado dela, eu quis saber dos truques pra atrair os gatinhos do baile. Dos coroas eu dou a receita. O moço acompanhava a banda. Nas vezes que se encontravam surgia entre eles aquele nhenhenhê. Quando ela gostava do cara, ia pra um canto mais reservado do salão e trocava uns beijos. Tática que usava pra não ficar marcada com o restante dos cavalheiros. Mas não passava disso, ela tinha um ficante. E onde ele estava? Dando plantão. Era policial da segurança de um político e alternava com bico na proteção de um empresário. Nas horas de folga era casado. Nisso o gato passou pela enésima vez no corredor à nossa frente. Parou diante dela, pegou um flyer e atirou-lhe no colo. Olhamos uma pra outra e caímos na gargalhada. Jeito brucutu de homem flertar, eu disse. Para ela homens não entendiam de gênero. Mais escolada em paqueras do que eu, tentou contemporizar: não eram só os homens que não tinham sutilezas, era um problema da raça humana, generalizou. Receber flores, esperar que a porta do carro fosse aberta e ganhar mimos eram invencionices que as mulheres não deviam esperar mais. Parece que a moça estava mais alinhada às ideias do cronista do que eu, que levei uma bronca por esperar um cara sensível e bom de pegada tudo no mesmo corpo. Muita função, baby! Mas os homens passam um aperto comigo, tanto mais quando estou de mal com a vida. Foi o que eu percebi quando um deles, ao trombar comigo sem esperar, quase perdeu seu copo de whisky na camisa de alguém porque se assustou com meu cumprimento. Antes disso, ele mesmo, que embaça comigo há um tempão, decidiu-se colocar bem no meu ângulo de visão. Só que entre ele e eu tinham duas fileiras atulhadas de mesas e cadeiras. Pra se safar da enroscada, saiu apertando a mão dos que estavam à sua frente. Depois que o moço virou as costas, o pessoal se perguntou a quem era dirigida tamanha efusividade. Só posso pensar que foi estratégia mal calculada. Às vezes, meu tipo geladeira põe distância. E pode dar a impressão que foi aprendido com diplomas. Vou confessar: trata-se de pura timidez. E falta de traquejo. Mas até que eu me machuque com uma porção de tombos e, espero, antes de usar bengala, vou continuar esperando pelo dois em um, tá monsieur cronista?

De moedinhas a compromisso de noivado

moedinhasEntão eu me aprontei e fui pega-la para o baile vespertino. Muita vaga pra estacionar na rua. O guardador de carros apareceu. O que é que tinha acontecido com a moça brava, que ele não via fazia tempo? Andei meio fugida daqui. E por que a moça chegou só duas horas antes de terminar o baile? Não é até às 23 horas? É não, lá dentro só tem resto. Toca pro outro salão. Ensinou o caminho que devia passar por uns viadutos, pelo shopping e pela estação de trem. O viaduto foi fácil encontrar. O shopping era bem do lado. Mas cadê a estação? Claro, nos perdemos numa avenida escura. Fiz retorno e parei no farol. O flanelinha tacou o pano ensebado no pára brisa. Falei pra companheira me dar uma moeda, das que ela tinha separado pra pagar o baile. Ela me apresentou vários rolinhos de fita crepe. Você vai pagar o ingresso com esse monte de moedinhas? E não é dinheiro? Ave! Conseguiu achar 1 real que não estava enfaixado. Perguntei para o moço onde era a estação enquanto eu passava a palheta no vidro, porque parece que por $ 1 ele só ensaboava. Vira ali, depois prá lá. Fomos as primeiras a chegar ao destino com uma hora de antecedência. Só perdemos para o altão maluco da banda, informou o segurança, carro de quem ele me fez grudar o meu. Cismada com ajudantes de manobra, desci pra conferir. Alguém que punha adesivo de cuidado, bebê a bordo, não devia ser tão maluco a ponto de fazer maluquices. Que eu ficasse tranquila, o malucão seria o último a sair. Na bilheteria me fingi de desconhecida quando ela despejou doze montinhos para serem contados, enquanto a fila aumentava. Conhecendo-a de décadas, era bem capaz de ter feito um cata das moedinhas de cinco centavos. A bilheteira aceitou na confiança pra não tumultuar a entrada. Mas não é que com a lábia dela, nos conseguiu uma boa mesa? É certo que ela confundiu os números se posicionando bem de frente ao palco, que era o lugar das dezenas, quando a dona do baile lhe tinha dado numeração de centena. Mal ela sentou-se, já foi tirada para dançar pelo senhorzinho tarado. Logo foi a minha vez. Ele tinha avistado minha outra amiga no baile da quinta-feira. Ela tinha dançado apenas uma vez. E por que ele não a convidou para dançar? Ele era muito requisitado pelas mulheres. Não lhe sobrou tempo para achegar-se a ela. O camarada assediado colou feito uma sombra ao meu lado. Até pediu para ocupar a cadeira vazia, enquanto ela sassaricava com um cavalheiro. Óbvio que não. Iam pensar que ele era meu namorado. Zarpou da minha frente. Nessas ocasiões, eu gostaria de distribuir drops de semancol, amenizaria meu remorso. O outro ele é um capítulo a parte. Foi o não querer querendo de eu ter perdido o rumo naquela tarde. Ele apelou para meu lado sensível com “nos momentos mais difíceis, você é o meu divã”. Tentou com outros versos. Não teve sucesso. A minha braveza comigo mesma por eu ter enganado a mim própria falava mais alto. Lá pelas tantas, ele resolveu mudar a tática e seguir meus conselhos: ajustar o repertório às situações. Se enrolou com a história de uma moça que estava oferecendo a música para alguém. Não tinha como eu ficar surda para “eu não tenho certeza se deixei de te amar. Só cansei de dá amor e você me dá gelo. Dói levar gelo. Sabe aquele gelo que você me deu? Eu tô tomando ele na balada com Whisk e Redbull. Bul.” Ainda por cima se fez de mártir. Mas deu certo. Pela primeira vez na noite eu levantei os olhos pra saber a cor da camisa dele. Como diz o cronista, é o status amoroso das convergências platônicas. Já que é assim, vou lhe dedicar uma quadrinha:  “dizer oi, por qualquer que seja o meio usado, é gesto de alguém interessado. Ao contrário do que você pensa, não é um compromisso de noivado.” Se você gostou, dá um oi aí. Só fico imaginando que se a gente já bate boca virtualmente, que futuro nós teríamos presencialmente? Como que respondendo a minha pergunta, o tal se manifestou. O oi veio em forma de retrato: aliança no dedo selando compromisso de casado. E o que sobrou, senão recolher os cacos e partir de vez pra outro lado?

O dia que o bonitão de camisa vermelha me descobriu

28 fev 2015 Banda Karol.jpg_usado para blogMinha ajuda foi solicitada. De que maneira? De qual tipo? Fiquei no escuro. Como apelos sempre me comovem, parti para enfrentar minhas alucinações. Não tive sorte com companhia de última hora, de modo que cheguei sozinha no salão de baile. Logo senti ares de conspiração do universo. O dono da mesa que tanto gostávamos tinha se ausentado. Poderíamos ficar no lugar dele. Cadê a amiga? Ela chegaria mais tarde. Não tive coragem de sabotar o oferecimento. Isso porque tais mimos são destinados à Amélia. Em que pese o teste indicar que meu ponto forte é a simpatia, acho que a colega de trabalho tem razão: tratando-se de mim, o resultado é uma boa prova de que tais testes são furados.   Claro que a boa localização me forçava a encarar, mesmo à distância, a presença do meu desatino. Não demorou muito, e ela pediu para dividir a mesa comigo. Também estava solta naquele domingo. Ela estava no meio de me contar o motivo, quando um sinhozinho me convidou pra dançar samba. Pra samba é preciso ter coragem, então eu me animo porque sei que homem não é de arriscar fazer feio. Não era o caso dele.  Devia faltar-lhe acuidade auditiva porque não sincronizava com a marcação do ritmo. Dançava quadrado. Pelejei pra encaixar o dois e dois dentro dos seus passos e salvar a nossa reputação, mas o tempo musical não batia. Desisti. Então, senti que ele batucava pagode na minha cintura. O homem não era auditivo, era tátil. Não adianta você querer que eu requebre fazendo esses passos, não acerto. Eu tenho que fazer dois e dois? No mínimo!  Foi só quando ele engatou o básico que eu consegui ouvir Morango do Nordeste, o terceiro samba tocado em batida lenta em respeito aos idosos. Ao voltar pra mesa eu vi o bonitão de camisa vermelha devolver a minha companheira à sua cadeira. Eu já o encontrei várias vezes em outros tantos bailes de outros tantos locais. Dança bem, o moço. Só que é daqueles que passam por mim como se eu fosse transparente. Não pude deixar de cobiçar a sorte dela e praguejar contra a minha sina em atrair os velhinhos que mal dançam ou que dançam mal. Na rodada instrumental de chorinho, o parceiro para o qual eu fiz fusquinha pra namorada um dia desses – e que está novamente avulso – me puxou pra dançar. Se eu não estivesse com o espírito tão armado, teria apostado que a seleção era um presente pra mim. Com a pista mais ou menos livre, girei, sapateei e pulei tanto que tive que parar na terceira música. Mas acho que deve ter servido como propaganda, porque o moço bonitão, que nunca deu pela minha existência, veio me convidar pra dançar justo o arrasta pé. É o tipo de ritmo que carece de destreza. É só se arrastar. Quem tem um pouco de equilíbrio já se sai vitorioso.  Fosse outro homem, eu teria dado a desculpa do pé doendo.  Mas eu não ia desperdiçar essa chance.  Ele me envolveu num abraço firme e com a mesma firmeza eu me apoiei em seu ombro. E soltei o corpo. Ele me virou pra direita, pra esquerda, pra trás, pra frente, fez que ia e ficou, fez passo quadrado, trocou pra passo de forró, rodou.  Até que a moça tocou o meu ombro com a bandeirinha. A dica para eu lhe passar o parceiro. Eu não ia mesmo conseguir ficar com um bom dançarino a seleção inteira. Antes de enlaçar a mulher, ele parou, olhou pra mim e agradeceu. Uau!  Que deferência. Quem manda me esnobar? Mas o que ele não sabe é que colado ao corpo do outro eu me transformo em pluma e danço qualquer coisa. O negócio complica quando se tem que sincronizar separados.  Deve ser a mesma situação na vida. Seria tão mais fácil experimentar juntos do que ter uma pista inteira a nos separar, não é não?