Joia Rara

Eu vivMarinhoo dizendo pra minha mãe que roteirista de novela da Globo é o ser mais previsível do planeta. Tem a turma que sempre se ferra. E a turma que aplica golpes. A nova novela das 6 não é diferente. Ernest e Manfred são os todos poderosos. Têm poder, dinheiro e nenhum escrúpulo. Do outo lado, Franz, Mundo e Amélia fazem os tipos babacas e crédulos . E no meio, os bobos da corte pra fazer a gente rir das peruagens. E não é que hoje eu senti na pele o que é ficar do lado dos babacas? Aqueles que se fodem. E que sempre estão um segundo atrasados em relação à truculência dos poderosos? Na província de São Bernardo do Campo (consultem a Wikipedia para verificarem qual partido político está na gestão) teve sessão da Câmara dos Vereadores que aprovou um estatuto do magistério (sim, porque vocês sabem, não é? A pedagogia se basta), em detrimento de um estatuto dos profissionais da educação, construído com horas surrupiadas do horário de planejamento dos professores, em três anos de discussão. Além da máquina administrativa e política, o governo tem na mão a força policial. Então, a babaca aqui, da tchurma dos crédulos, foi impedida de entrar na Câmara para acompanhar a votação. A GCM que protegeu o prédio foi composta, dizem esses fofoqueiros do “não”, por profissionais que estavam em estágio probatório. Vai ver que sim, porque tinha um monte de GCM à paisana do lado de fora que, como eu, tentava entrar na Câmara. Dentro, os todos poderosos – prefeito e vereadores – contrataram seguranças particulares (desses musculosos, de academia) para impedir que as pessoas que chegaram às 7 da matina ocupassem as cadeiras mais próximas do plenário. Ah, sim, os governistas também distribuiram camisetas com o sim estampado para um pessoal do programa Tempo de Escola, que são pagos com o dinheiro da educação, para fazer platéia para os Vereadores. O que não era preciso. E foi apenas mais gasto de dinheiro público. Porque o prefeito tinha feito uma reunião com a bancada governista e fechado acordo antecipado. Dizem as más línguas que um segurança pessoal do prefeito deu uma porrada nas costas de um dos educadores contrário à proposta. Igualzinho como aconteceu na novela hoje. E da mesma forma que o jornalista foi socorrido pelo Franz, algumas educadoras tiveram que fechar o cerco para proteger o agredido. Tem mais. Quatro mulheres cegas, atendidas pelo serviço de deficiência visual da educação, estiveram presentes desde muito cedo para manifestarem-se contrárias a extinção do cargo de professores de atendimento educacional especializado. E quando foi solicitado aos seguranças do sim que desocupassem as cadeiras destinadas às pessoas com deficiência, sabe o que eles responderam? Quem não anda e não enxerga que fique em casa! Sabe qual é o slogam do governo desta província? Governo da Inclusão. Fala? Não é a cara da novela Joia Rara?
Foto: Diário do Grande ABC

Sobre gêneros textuais

Gostei de vocêEla me presenteou com seis linhas de Manoel de Barros. E me mobilizou a fazer peraltagens com as palavras. De saída já esclareço. Não sou amiga de poesias. Pra não fazer desfeita a um amor do passado, guardo o livro de Fernando Pessoa. Não fui muito além de não sou nada. Nunca serei nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. A outra oferenda do mesmo amor, que era dado a escrever poemas, não teve a mesma sorte. Me livrei de Roland Barthes e o seu fragmentos de um discurso amoroso. Dele, eu só gostava da capa dourada. Achei que por tão pouco não valia a pena deixá-lo fazer peso nos caminhões de mudança. Mas gosto dos versos das canções. Como esse do Sá, Rodrix e Guarabyra. Preso nessa cela. De ossos, carne e sangue. Dando ordens a quem não sabe. Obedecendo a quem tem. Ou então do Emílio Santiago. Mas o que é vida afinal? Será que é fazer o que o mestre mandou? É comer o pão que o diabo amassou? Perdendo da vida o que tem de melhor. Meu gosto literário foi forjado na infância. Eu destrancava o guarda roupas do único membro intelectual da família – minha tia – e surrupiava as fotonovelas do Jacques Douglas. Na adolescência eu descobri as crônicas. Desculpem-me o rumo escatológico. Mas foi no banheiro. No intervalo de tempo entre seis e seis e quinze que me era reservado às atividades de vida diária. O jornal impresso entrava em casa como papel de embrulho. Sem serventia, depressa vó nos ensinou a lhe dar outros usos. Não necessariamente o de leitura. Mas antes de dar às folhas amassadas seu destino irrevogável, eu dava uma passada de olhos pelos trechos mais curtos. Pela carência de tempo e pelos limites do suporte textual, meu interesse se pregou nas crônicas. Mais tarde, me tornei fã dos mineiros Fernando Sabino e Otto Lara Resende. Porém, foi com os meus preferidos ainda na ativa – Luis Fernando Veríssimo, Antonio Prata, Marcelo Rubem Paiva – que eu fui me dando conta de uma virada. Agora, as crônicas são encomendadas. Estão ligadas ao assunto da semana. Têm dia pra sair. Têm número de laudas. E ficaram chatas de ler. Porque a quantidade de linhas aumentou e o meu tempo empregado na leitura continua o mesmo, passei a pular trechos. E como o menino que foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela, eu inventei umas enrolações de um parágrafo só. Que uma das minhas simpatizantes batizou de nanoconto. Então, essa sopa de letras aqui vai pra você, camaradinha. Que se enfiou no curso superior com a mais alta carga de leitura. E que detesta ler. Se eu dei no que sou hoje lendo fragmento de jornal em WC, você pode chegar a desembargador exercitando com postagem de rede social. #ficaadica. Se inspire em Jesus numa moto.

https://www.youtube.com/watch?v=pr6jB6lmCKM

Como descobrir se você faz parte da terceira idade

Vidas separadas_webEle é um catatau de cinco anos e meio que vive causando no infantil. Quando não está se engalfinhando com as outras crianças, constrange a professora em público. Fala que ela não manda nele. Gosta de dizer para os adultos tomarem naquele lugar. Se pinica da classe quando bem lhe convém. Tem tia perueira que se recusa a receber pagamento pelo serviço de transportá-lo para as aulas. Já foi expulso de seis escolas particulares. Foi parar na educação infantil pública porque, disse a mãe, temos que aturá-lo de qualquer forma.  O que é verdadeiro. Nosso compromisso ético é o de introduzir os novos no mundo público. Seja lá quem for. Mas que desgaste. Ele tem boa retórica. É argumentativo e estrategista. Um adulto não pode falar uma palavra impensada que ele se aproveita da ambiguidade da língua. Não há cristão que aguente se manter nesta posição antecipatória cinco horas por dia. Com tanto talento, seria esperado que ele convertesse um pouco para as letras e os números. Que nada! Diz que não quer aprender a ler nem escrever. Os jogos já lhe bastam. Decidimos fazer valer o nome do pai. No dia da entrevista, demos de cara com um casal na faixa dos 25 anos. Cada qual com sua vida própria em uma cidade diferente. Antes que uma de nós abrisse a boca, o pai sai falando que o menino é parecido com ele. Que também fugia da escola e arrepiava com a criançada. Não sabia explicar porque isso acontecia. Vai ver que era porque ele foi criado sem os pais e o tio militar costumava algemá-lo. Quanto ao garoto ser bom de papo, herdou da mãe. Alfinetada à parte, pudemos constatar na prática. Era um sufoco colocar ponto final na verborragia materna. Logo, o assunto salta do menino para as acusações mútuas. Num ímpeto, o pai empurra a cadeira para trás, sai da sala e bate uma porta. Enquanto a coordenadora vai atrás do moço, eu fico com a lamurienta. Depois de uns dez minutos, estamos os quatro juntos novamente. Fechamos combinados que não vão ser cumpridos. E para piorar, vai sobrar pra mim no ano que vem. Isto é, se a secretária de educação não emplacar a sua proposta de desmonte da equipe na qual trabalho. O que pensando bem, talvez seja uma vantagem pra mim. No balanço da reunião, a coordenadora conta que o pai disse que odeia sua mãe. Mas não suporta ver a ex-mulher falar mal dela. Sua mãe não tinha mais paciência com o menino. Ela já era velha. Tinha 50 anos. Daí que entendi a cara de chocada da coordenadora quando ela voltou pra sala. Liga não, entenda como um elogio. Você deve estar embebida em formol. Para ele te considerar uma cocotinha de 30. O que fazemos? Não sei, mas aceito palpites.

A menina que queria ler

???????????????????????????????????????Ela se aproximou de mim quando estávamos recortando figuras de animais para emparelhar com as palavras “vaca”, “ovelha”, “porco” e “galinha”. Pediu-me para ensiná-la a ler. Convidei-a para fazer o exercício conosco. Por falta de espaço, depositou seu livro no meu colo. Enquanto ela se dava aos recortes, voltei minha atenção para ele. Olha, o menino quer chegar a 20 animais, mas só tem 14: quantos faltam? Pedi-lhe que me mostrasse suas duas mãos. Íamos precisar de todos os dedos para contar. Ó só! Põe o 14 na cabeça. Ele, que era de estilo literal, sentiu necessidade de apertar o cocuruto pra não deixar o número escapar. Na hora de escrever o algarismo seis, resultado que a gente chegou depois de muita labuta com os dedos, novo problema. Vamo olhá na tabela. Foi contando, mas eu tive que brecá-lo no 6, caso contrário seguiria até o infinito. Ôba! Hora da biblioteca! A turma entrou animada no recinto. Suspeito que mais motivada pelo colorido do ambiente em oposição ao cinza da classe, do que pelo gosto aos livros. Me enfiei na turminha que pegou os gibis. Quem lê uma história pra mim? A gente não sabe lê! Como não? Qué vê só? Folheei páginas até encontrar quadrinhos sem balões de fala. Com seus gibis, uma por uma das crianças foi lendo uma história para todos nós. Por último, ela insistiu: me ensina a lê? Ih, mas agora a gente vai ter de sair daqui. Na rotina de quartel da escola, outra turma esperava pra entrar na sala. Fomos para o lanche, acoplado ao horário de recreio. Ela se sentou no banco do meu lado. Eu pedi pro cê me ensiná lê! Mas cê num vai comê? Num quero. Olhei pro meu material. Acalmem-se os espíritos precavidos! Não puxei uma Caminho Suave, não.  Apresentei a ela a revista Nova Escola. Vamo lê essa palavra aqui. Circulei as sílabas e avisei: tem que juntar as letras e ler por pedacinho. Não fez sentido. Mas conseguiu nomear uma por uma das letras em tipo imprensa. O que não era pouco. Qual é o som que eu falo quando junto “e” com o “s”? Eu sei! Outra menina disparou. Eu tambééém! Foi a vez do garoto. Já tinha um grupinho ao nosso redor. Fomos juntando pedacinho por pedacinho e eu retomei: “escola”. É isso? É. Você leu, tá vendo? A gente começa lendo palavra, não essa sopa de letrinha que tá aqui na página. Mas num é hora do recreio de vocês? Olhei para o pátio externo. As crianças corriam a esmo de um lado pra o outro. Conclui que aquelas crianças preferiram fazer uma troca. Seu horário livre por um exercício intelectual. No saguão do refeitório. Como é que se explica? Quanto a mim, tive um clique. Eu compreendi, depois de toda uma vida, que eu teria dado uma boa professora alfabetizadora.

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