Psicologia barata

Fonte: Vamos dançar
Fonte: Vamos dançar

Um pelotão de casais parecia disposto a segurar as paredes do fundo do salão. Uma renca de homens avulsos parecia ter o mesmo objetivo. Só que com relação ao balcão do bar. Se pagaram para dançar bolero, tinham se ferrado. Quem percebeu isso foi a Amélia. Se bem que bolero de verdade não é pra qualquer um. Não se convida uma desconhecida para se aventurar nos passos. E ali só uns dois homens se mostravam habilidosos. Evidentemente, estavam acompanhados.  Então, vamos falar de música lenta, o ritmo preferido de quem não sabe dançar. Quem disse isso também foi a Amélia. Lá pelas tantas, a banda concedeu aos românticos. Aos primeiros acordes, corri para o banheiro. Um bom motivo me movia: me refrescar depois do chá chá chá com aquele camaradinha que tinha me feito suar cada centavo do ingresso. Encontrei o lugar cheio de outras tantas que, como eu, tinha escapado da agarração. Ela contava sobre aquele anta que havia conhecido uns quinze dias atrás. Foram juntos em não sei quantos bailes. Sequer uma cervejinha ele foi capaz de pagar. E, afora uns beijos, não tinha rolado mais nada. Ela não ia perder seu tempo com um chato desses. Tava lá, dançando com outro, quando viu a anta entrar. A certa altura, se toparam. Ele disse que não esperava encontrá-la ali, que ela não tinha lhe telefonado. Ela revidou: ele também não. Para nós, suas ouvintes, ela dizia que se ele pretendia só lhe dar uns beijos, ele estava muito enganado. Que fosse tomar naquele lugar. E levantou o dedo médio para ilustrar a sua indignação. Ela estava na área dela e não ia manchar sua imagem. Quando voltei, fui interceptada por um cara que tinha acabado de chegar. Eu o conhecia de outras paragens. Dançava acima da média. Por que não arriscar no bolero? Duas músicas no dois pra cá, dois pra lá, um beijo na testa e outro no rosto me deixaram cismada. Onde tinha ido parar o talento dele? Voltou a me convidar pra dançar forró.  Minha animação não durou muito. Me levou num passo brecado o tempo todo. De forma a me manter junto do seu corpo. Quando a cadeira do meu lado vagou, pediu licença para sentar-se. Queria saber sobre mim. Fiz uma síntese da minha vida em duas palavras: eu trabalho. Que bom, trabalhar é muito importante. E o que mais? Sou arisca, me ocorreu avisar.  Ele também era cauteloso com as mulheres, mas achava que a gente não devia generalizar. Deu-me um cartão com seu telefone. E pediu o meu. Rateei e ouvi uma preleção de que o único jeito de acontecer um relacionamento, era as pessoas tentarem se conhecer um pouco em outros espaços. Se desse em algo, tudo bem. Se não, partia-se para outra. Caso contrário, se acabava solitário. Claro que ele tinha razão. Mas eu ainda não era capaz de quebrar meu protocolo. Dancei a saideira com ele. No mesmo passo comedido, apesar do refrão do camaro amarelo suscitar arrojo. Quando eu coloquei a cabeça no travesseiro, o estranhamento transformou-se em ideia. Será que aquele era o cara de quem a moça no banheiro falava?

Vida de detetive

Eu lhes disse que o mais importante era que aquele menino apresentava-se como quem se imaginava ameaçado. Um medo que se expressava pela sua inquietação que deixava a gente tonta. E do qual eu não tinha evidências empíricas para lhes mostrar com aquele vídeo. Apenas intuía. Sentia com o meu corpo. Nada objetivo para se transmitir para um grupo de professores, né não? Curioso é que encontrei no detetive-chefe Van Veeteren relato da mesma experiência. Ele confidenciava que tinha a sensação de estar no lugar certo. Que era óbvio que essa vagueza pertencia ao tipo de conhecimento que ele geralmente procurava pôr de lado. À intuição que se expunha e com a qual ele tinha a sensação de ser uma espécie de ferramenta da justiça divina. Mas isso não era motivo para se gabar. Não mesmo. Ele sempre contava com o pendor detetivesco da coletividade. E aprendeu que neste mundo há mais relações do que partículas no universo. O problema é encontrar a certa.  O sueco Håkan Nesser parece que foi meu amigo de infância. Ludo real retrata bem o espírito da coisa.

https://www.youtube.com/watch?v=HFLyCqxEv-g