VIAJANTE DE PRIMEIRA VIAGEM

Não gosto de andar de avião. De nada ajudou quando a moça do lado oposto, jovem e de aparência mundana, puxou um rosário de contas marrons e começou a murmurar o terço. Tampouco a presença de um subcomandante da linha aérea. Sentado à frente da dona, ajeitava os óculos escuros e o espaldar a cada vez que o aviso de segurança acendia e a aeromoça informava, com voz digitalizada, que o serviço de bordo seria suspenso durante a turbulência. Falta de solidariedade mesmo foi a do rapaz na fileira atrás da minha. Dormiu antes de o avião decolar e só acordou quando a comissária anunciou que as portas estavam abertas para o desembarque. E mal educado o moço que fechou a veneziana da janela, sem me pedir licença. Impediu a minha visão do vôo rasante e na perpendicular que o avião fez sobre a cidade. Contudo, este foi o único jeito de transpor os dois mil, novecentos e trinta e três quilômetros que separam São Paulo de Belém, com calendário apertado. A escala em Brasília prenunciou os novos ares. Desceram os engravatados, de barba feita e de cabelos curtíssimos, portando seus notebooks. E as mulheres em suas vestes coordenadas, carregando suas pastas, livros e revistas. Embarcaram homens em mangas de camisa, alguns usando sandálias, de cabelos desapegados da moda, acompanhados de uma orgia de pacotes, equipamentos, instrumentos e mochilas. Mulheres de vestidos coloridos e refrescantes, uma e outra trazendo um chapéu junto à bagagem de mão. À saída do aeroporto, Belém se mostrou em sol a pino, beirando os trinta e sete graus.

No trajeto para a rodoviária o motorista do taxi mostrou-se generoso anfitrião. A avenida larga derrubou centenárias mangueiras. O prédio em estilo colonial do antigo grupo escolar agora sediava, restaurado, o Fórum. Quarteirões de terreno bem cuidado pertenciam à Marinha e ao Exército. Ao fundo da paisagem plana, numa arquitetura futurista, o palácio de eventos. Para onde a moça estava indo? Cametá. Terra do açaí, o homem explicou. Dizia-se que os habitantes de lá tinham pele remoçada resultado do consumo insistente da fruta. Também uma das poucas cidades do estado que preservavam o desfile de blocos carnavalescos. Belém tinha sido tomada por uma febre de trios elétricos e seus axés. Mas eu que me preparasse para as cinco horas de viagem, parte em asfalto parte em terra batida. Cinco horas? Por causa da balsa, ajuntou. Recuperei a minha experiência com a Ilha Bela e o Riacho Grande. Eu não era exatamente zerada em questões de balsa. Podia compreender os entraves. Com estas parcas informações sobre a minha cidade de destino desembarquei do taxi. Rodoviária é rodoviária em qualquer parte do país. É quase uma cultura. No primeiro guichê descobri que não tinha mais horário de viagem para a localidade. Remetida a uma segunda empresa, nem me dei conta que estava quase em jejum de alimento e água, quando a atendente disse que um ônibus estava de partida na plataforma. Eram duas horas da tarde. Como chego lá? Desce a escada rolante e depois sobe a escada na última baia do corredor. Descer a escada rolante, apesar da sua estreiteza, foi fácil. A escada de subida, estrangulada, de alvenaria e degraus altos, me desafiou. Ajeitei no ombro os cinco quilos do notebook e objetos de mão. E puxei pela alça a mala de dezesseis quilos, treze dos quais de livros. Com determinação espartana, depositei o volume ao pé do motorista do micro ônibus. Os motores acionados dos veículos faziam a temperatura local passar dos quarenta graus. Por obra não se sabe de qual engenharia, a plataforma de embarque ficava no mesmo plano das bilheterias. Por que, então, o desce e sobe? Dentro do veículo, meu assento numerado tinha sido ocupado por senhora de idade indefinida. Vinte e sete reais da passagem deveriam valer certa regalia. Mão não. As leis daquela terra, ao que pareciam, eram outras. Não criei o caso, que me entalou na garganta e distraiu meu estômago faminto. Joguei-me no último banco, junto ao motor e em cima das rodas. Partimos.

A avenida que escoava o trânsito para longe da cidade saia detrás da rodoviária. Prédios maltratados metidos no meio de uma profusão de anúncios. Nas paradas dos ônibus, barracos precários acomodavam os ambulantes. Impossível não pensar nos camelôs de São Paulo como quase uma grife. Laranjas descascadas em montes de cinco e garrafas de água atiçavam os passageiros. Quase abandonei a prudência higiênica. Mas a incerteza da viagem sem parada para as demandas fisiológicas levaram a melhor. Foi quando uma maravilha afetou-me os sentidos. Seria o rio, cuja margem oposta, se perdia de vista? Ou a tecnologia que na sua rudeza de concreto rasgava a natureza? Não soube precisar. Imponente, a ponte estaiada estirava-se em dois quilômetros sobre as águas voluptuosas do Guamá. Do outro lado, um Brasil estrangeiro.

Habitações de madeira com a mesma cara apareciam aqui e ali, na beirada da rodovia. Ostentavam avisos singelos: vende gasolina; tem cerveja; aqui ficha de telefone. Mistura de casa e comércio. Mais mata. Nem alta e nem fechada. Outro núcleo de construções. Uma escola. As pessoas decerto estavam escondidas. Do calor impiedoso. Compartilhei minha curiosidade sobre o povoamento intermitente. O homem vizinho de assento, no ônibus da volta, justificou por ser área de igarapé. Alagados. Como se fosse um mangue, né? Quase isso. É que mangue é de água salgada. Igarapé é de rio. Devo ter pulado essa parte da aula de geografia. Paramos na balsa. Arrisquei tímida para o sujeito que sobrou dentro do ônibus: do outro lado é Cametá? Não. Os veículos entraram de ré. A balsa girou e em questão de minutos despachou-os de frente. Junto com os passageiros o ambulante apareceu vendendo água. Se não era Cametá, sem chances. Atrás dele um cara distribuía porções de biscoitos. Um saco plástico transparente fazia as vezes de luva. Depositou na minha mão uma rodinha e um rolinho crocantes e quentinhos. Que eu experimentasse, ia gostar. O rolinho se dissolveu na boca. Eu tinha topado com a oitava maravilha deste mundo. Por um real, tirou um saquinho de dentro do balde e nomeou: beijo de moça. Mais chão batido e música regional rodando em cd pela terceira vez. Outra balsa. Falta muito pra Cametá? Umas duas horas. Na beira das águas uma barraca acomodava uma porção de cestos de vime. Repletos de pontinhos pretos. Lembraram-me jabuticabas. Categoria frutas, sem dúvida. Rebobinei a fita e conclui: açaí. Mais solavancos. Uma escola isolada. Gente que apeava no ermo. Nova parada. Olhei em torno à procura de sinais urbanos. Afinal Cametá tinha uma universidade federal. Mato, rio, terra, barraca e um aglomerado de pessoas. Dessa vez o motorista desligou o motor. Pulou do ônibus. Os passageiros que sobraram puxaram as tralhas e desceram. Achei por bem seguir a legião. Aqui tua mala, moça. Já é Cametá? Ei voceis, leva a moça té lá. Dois meninos se acercaram. Camisetas puídas. Quase não tinham mais espaço para buracos. Qué que eu levo? É muito longe? Olhei à volta, desnorteada. É prá lá. Vocês cobram? Um olhou para o outro. Olharam para mim. Não responderam. Deixa que eu levo, vocês não vão agüentar o peso. Seguiram à minha frente. Puxei a mala para subir quatro degraus estreitos de madeira. Davam para um estrado. A distância entre uma tábua e outra cabia um pé. Eu seguia de cabeça baixa cuidando para que o pé não entrasse no vão. Abaixo, o rio. Não dava conta de olhar o entorno. Parava para descansar o peso da mala. Os meninos olhavam para mim e esperavam. Devo ter levado uma eternidade para atravessar algo como cem metros. E devia estar atrasando alguma coisa. Porque de dentro de uma … como vou dizer … embarcação, saltou um homem. Sem palavra puxou a mala da minha mão. Pulou por sobre as águas em cima de uns troncos e entrou naquilo que estava atracado naquela espécie de cais. Equilibrando-me nos troncos, segui seu rumo. Entrei numa barca comprida e coberta. Os mais otimistas, vim a saber, chamam-na de lancha. Sentei-me no primeiro lugar que vi. Um banco na lateral. Vários pares de olhos me observavam. O homem segurou no timão e girou. A barca deslizou. Devagar, foi deixando para trás o vilarejo. O mato foi abrindo. O volume de água aumentando. O sol vermelho e baixo no poente refletiu-se no mar. Um mar chamado Tocantins.