O Tarot

O TAROT

Ela espalhou sobre a mesa as cinco cartas da rodada de perguntas. Eram cartas promissoras, disse. Embora a da Lua sinalizasse questões interiores para as quais eu deveria atentar. Mas ficou hesitante, parecendo buscar as melhores palavras para decifrar as duas cartas que estavam mais próximas de mim. Vai surgir um homem jovem com quem você vai compartilhar … PQP! Deixei de ouvi-la. Lembrei que os homens que fizeram parte da minha história amorosa foram, sem exceção, mais novos do que eu. E tinham um jeito peculiar de apego às suas mães. Mesmo os dois primeiros, com os quais eu passei, sucessivamente, trinta anos da minha condição de adulta. Muito tempo depois de eu estar desacompanhada, eu me envolvi com um camarada solteirinho da silva, sete anos mais novo do que eu. Ele era bonito, bem humorado, cheiroso e conversador. Não tinha concluído o ensino secundário. Havia sido expulso por dar cavalo de pau com um Mustang na porta da escola, no horário de saída. Ele era mecânico de carro e trabalhava por conta própria. Era um cara que não se submetia a um patrão ou rotina. Quase não tinha dinheiro nem clientes, por isso nosso divertimento era andar de mãos dadas pelo bairro. Assunto era o que não lhe faltava. Eu gostava da sua conversa inteligente. Uma vez, deitados à sombra e olhando para o céu, ele me deu uma aula de astrofísica. Mas só dormia com luz acesa e televisão ligada. O encanto terminou quando me levou para conhecer a casa onde morava sozinho, depois da morte do pai e mãe. Eu tive um choque: ele era um acumulador. Não tinha um canto, da garagem ao quintal, que não fosse ocupado por quinquilharias. E muita sujeira. Ficamos juntos por pouco tempo. Um domingo ele disse que ia para um churrasco com os amigos. No fim do dia, eu disquei pra casa dele. Quem atendeu foi uma voz de mulher. Com o coração aos saltos, eu desliguei sem checar. Ele jurou que eu havia ligado para número errado. Eu jurei que tinha ligado com o modo rediscagem do telefone, como das outras vezes. Verdade ou não, o fato me serviu como desculpa para eu por fim no relacionamento. Passou um tantão até eu me enroscar com outro moço. Eu era mais velha quinze anos. Derramei muita lágrima no divã da analista para aceitar que idade era algo relativo. Não no caso dele, como conclui mais tarde. Nos víamos em dias alternados por conta de seu trabalho como segurança. Ficávamos pendurados no MSN. Ele não se incomodava com minha idade, mas sim com meus títulos. Cursava Direito e seu sonho era ser delegado de polícia. Gostava de falar de física quântica e de energia de outras dimensões. Contava que morava com os pais. Tinha sido alcoólatra e entrado em programa de reabilitação. Dizia ser separado da esposa com quem teve um casal de filhos que estavam na faixa dos vinte anos. Em seguida, teve um relacionamento sério com uma moça, com quem conviveu alguns meses por pena. Na véspera de vinte e quatro de dezembro passamos o dia trocando mensagens por celular. Ele se mostrava irritado por ter de trabalhar. Deu meia noite, chegou o Natal e nada dele ligar. Fui eu que lhe mandei um oi. Ele tinha estado nervoso e ocupado porque havia nascido o filho de sua filha. Não tive notícias dele durante um mês, até nos encontrarmos cara a cara. Fez apenas um cumprimento formal. Não me procurou mais. Encontrei com ele um ano depois. Disse que se arrependimento matasse, ele estaria morto por não ter ficado comigo. No fundo, eu suspeitava que a criança que nasceu era seu filho e não seu neto. Vi a foto dele todo sorridente segurando um menininho nos braços. Mas não lhe confrontei. Apenas declarei que eu achava que ele tinha ficado comigo e com outra ao mesmo tempo. Fui desrespeitoso contigo. Esta foi sua explicação lacônica. Só lhe joguei um beijo e fui embora. Eu estava curtindo a ressaca desse cidadão, quando entrou no meu campo de visão o último e mais recente homem que mexeu comigo. Eu o conhecia de ouvidos havia um ano e meio. Nunca lhe prestei atenção. Até aquela tarde. Bati o olho no sujeito e vi sua figura vestida de negro. Nossa! Como esse cara emagreceu! A amiga completou: vê como ele tá com uma calça agarrada! Caímos na risada. Era falta do que fazer quando não se dança. O tal quase torceu o pescoço ao olhar pra mim numa distância de uns vinte metros. Pesquisei e descobri que o cara era casado e com um filho de meses. Passei chave no entusiasmo e toquei a vida. Eu o via sempre por aí. Passaram-se uns dois anos em que o encontrei com parceiras diferentes. Às vezes, a gente tinha umas escaramuças virtuais feias. Eu sempre saia sangrando. Por fim, ele começou espalhar que estava sozinho. Uma vez se referiu publicamente à esposa apenas como mãe de seu filho. Eu acreditei e me aproximei. Eu calculava ser mais velha que ele uns seis anos. Éramos o oposto um do outro. Eu sou pausada, ele é inquieto. Na primeira vez que nos falamos, ele fez um interrogatório. Quis saber se eu era paulistana, qual era minha religião e quanto eu tinha estudado. Fez questão de contar que era nordestino, religioso (evangélico?) e que não tinha terminado o ensino fundamental. Arranjava confusão na escola. Mas sabe aquela sensação de que finalmente chegamos em casa? Era assim que eu me sentia em relação a ele. Tinha um jeito incomum de me acalmar. Na vez em que eu estava ensandecida e usava minha artilharia de palavras, mandou a música do Zeca Baleiro que começava com “eu não quero ver você cuspindo ódio, eu não quero ver você fumando ópio, pra sarar a dor”. O alívio foi imediato. Na noite que eu chorei pela morte de Marielle, encontrei no dia seguinte a mensagem singela #marielepresente. Ele tem esse dom de me tocar mesmo a distância. Na véspera do Ano Novo contou que tinha uma filha com diferença de quatro meses de seu filho pequeno. Na época, tinha brigado com a esposa, e tinha acontecido. Lembro de quase ter vomitado de indignação. Passamos um mês estremecidos, eu querendo acreditar que ainda teríamos um futuro. Até que ele conseguiu dizer que tinha escolhido ficar com a esposa porque amava muito o filho. Acho que esperava que eu o compreendesse. Porque naquela noite, sentou-se ao meu lado, com seus olhos esverdeados, como costumavam ficar quando ele me via e foi falando pedaços de sua história. Suponho que sua esposa atual também entrou na vida dele pela porta dos fundos. Ele tem esse lado moleque de achar que pode enrolar todo mundo. Acho que nenhuma mulher lhe disse não em toda sua vida. Bloqueei meu contato com ele. Sangro até hoje. Para convencer a si próprio sobre sua felicidade, postou uma foto da esposa com o filho, com os dizeres “eles são a razão da minha vida”. Sei. Pensei tudo isso na fração de segundos em que fiquei muda diante da taróloga. Ela resolveu refazer sua leitura. Olha, apontou as duas cartas mais próximas a mim, não precisa ser necessariamente um homem mais jovem. Pode ser alguém brincalhão, por isso a figura do mancebo. Mas vai acontecer. É uma troca. Vocês têm o que ensinar e aprender um com o outro. A minha resposta foi uma lágrima solitária. Mas eu sei que isso é pura ficção na qual me agarro em momentos de aflição, sabe?

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Despedida

20180409_232944Hoje acordei com saudade do Edgard Cipoli Ribeiro. A lembrança fugidia de uma assembleia de trabalhadores me assaltou. Não, não, acho que era um comício. Montes de gente esparramados pelas calçadas num domingo, talvez. Não lembro como saímos da Bela Vista, no centro de São Paulo, e chegamos na cidade de São Bernardo com o dinheiro curto e sem linhas de ônibus facilitadoras. Estávamos acompanhados pelo Ruy, o mesmo que me deu o livro “O Capital”, de Karl Marx – raridade na época – pra eu estudar no curso de Ciências Sociais. Discursava um tal de Lula. Edgard foi meu primeiro namorado e com quem eu vivi os primeiros sete anos de vida de adulta. Foi ele quem me deu uma família quando eu estava estranhada com a minha. Yone, Naná e Lisete cansaram de dar dinheiro, comida e arranjar bico de trabalho para um casal que tinha mais sonhos na cabeça do que laços com a realidade. Foi na companhia dele que eu participei da inauguração do Partido dos Trabalhadores naquela casa simplória da Rua Abolição. Não me lembro se ele ganhava uns trocados pra nossa manutenção no jornal alternativo Movimento. Só lembro que eu guardei todos os exemplares, que carreguei comigo após nossa separação, até me desfazer deles numa das tantas mudanças de casa que fiz. Pelo mesmo motivo, também me livrei da coleção de LP do Chico Buarque, que Edgard me ensinou a apreciar, como contraponto a meu gosto suburbano pelo pessoal da Jovem Guarda e pela música romântica italiana. Foi ele quem me levou pela primeira vez ao cinema e depois muitas outras. Assistíamos à Feios, Sujos e Malvados ou ao Último Tango em Paris e depois nos encontrávamos com os amigos no Sujinho pra debater a respeito dos dilemas do Brasil e do mundo. Ele passou uma noite inteira do lado de fora do batalhão Tobias de Aguiar, esperando eu ser liberada pelo Departamento de Ordem Pública e Social quando da invasão da PUC a mando do coronel Erasmo Dias. Mas um dia, tudo desandou entre a gente. Eu arrumei a casa, juntei minhas poucas coisas, peguei a colecção dos LP do Chico e do jornal Movimento, deixei um bilhete sobre a cama e fui embora sem olhar para trás. Quase o esqueci. Até que muitos anos depois, eu topei com ele na Rua Treze de Maio, saindo do diretório do PT, do qual ele se tornou funcionário. Foi um encontro frio e educado. Fiquei sabendo que Naná tinha morrido, Lisete estava pra se casar e que Yone, sua irmã, continuava driblando as sucessivas administrações na Secretaria de Educação. Foi a última vez que o vi. Nos anos do aparecimento da internet e nos momentos de grandes mobilizações sociais e políticas, dei de pesquisar seu paradeiro, sem sucesso. Parecia que ele tinha evaporado no ar. Não fiquei com nenhum documento, nem sua idade eu atinava. Só sobraram duas fotografias. No day after ao impichemente da Presidente Dilma, eu chorava enrodilhada no sofá, após cada análise conjectural lida no Facebook. Uma sensação de desamparo e de injustiça primordiais me levaram a pegar o tablet e fuçar seu nome. Primeiro, apareceu uma escola no interior paulista que carregava o nome de sua mãe e dos quatro filhos dela. Em seguida, o nome do irmão neurologista e professor estabelecido em outro Estado. Por fim, uma nota de falecimento no Diário do Povo, datada de 2011. Era uma despedida e agradecimento ao serviços do Edgard a alguma causa. Ele se foi aos cinquenta e uns. Chocada, vasculhei mais informação. Num passe de mágica surgiu seu registro no portal da Assembleia Legislativa ou da Câmara de Vereadores, não recordo, com o período de serviço como assessor parlamentar e a data do seu desligamento. Mais ou menos em período próximo, encontrei o resultado de um processo movido contra o Hospital do Servidor Público que lhe dava ganho de algum procedimento médico. Será que ele tinha sido surpreendido por um tumor na cabeça? Lembrei do Gadernal que ele tomava desde menino e continuou tomando vida afora. Quis dar um abraço na Yone, mas ela também parecia ter desaparecido do mapa. No day after à prisão do ex Presidente Lula, eu acordei e meu primeiro pensamento foi para o Edgard. Agora já sei que ele funciona como uma espécie de guardião quando me sinto ideologicamente arrasada, sabe? #Edgardpresente

Religião, futebol e política acabam com o relacionamento?

Comício pelas “Diretas Já” em 1984 no Vale do Anhangabaú, São Paulo.
Fonte: Folha – UOL

Ele sempre achou que eu me envolvia com todo homem com quem eu dançava. Mal sabia ele que o problema era outro. Uma questão de currículo. Sim, caso contrário, eu já teria saído da lista das encalhadas há anos com o meu vizinho single, saradão e que tem a mesma idade que eu. Só que o camarada é daqueles que frequenta missa semanal e que vi se enrolar na bandeira brasileira, num domingo qualquer, para participar de uma manifestação do movimento brasil livre. E ainda por cima, me convidar. Sem chances. Também tem jeito de torcer pro Palmeiras, o que seria o de menos. Por isso, com o amor contemporâneo, resolvi tatear no escuro. Começamos pela religião. Fiquei com a impressão de que era evangélico, porque quando lhe contei que eu tinha perdido o voo para Angola, ele me consolou. Era um livramento. Do lado dele, a preocupação era genuína. Ao nos encontrarmos pela primeira vez, perguntou: você acredita em Deus? Lembrei do voto perdido no Fernando Henrique Cardoso porque o infeliz se declarou ateu nas vésperas das eleições. Não sou religiosa, contemporizei. O que não deixa de ser verdadeiro. As amigas costumam gozar. Nunca viram uma ateia que tem medo de mexer em despacho de umbanda. Já o amigo diz estar pra ver uma lacaniana acreditar em astrologia. Crenças a parte, quem sabe a gente pudesse contornar a questão da religiosidade? Sobre futebol, ele ficou aliviado. Disparou ao microfone um ah, ela é corinthiana! Eu comemorava o título do Corinthians mais por euforia e por querer me apresentar popular, do que por interesse em futebol.  Minha família toda é corinthiana. Meu tio-avô foi roupeiro do time. Passei a infância atravessando a pinguela sobre o Tietê que ligava a Vila Maria ao Parque São Jorge. No mínimo, devo respeito. Mas a sua ideologia política, ele manteve em segredo.  Eu queria acreditar que um nordestino que teve uma vida difícil não faria apologia à ditadura. Embora, no domingo do impechemente da Presidente, eu estivesse no salão de baile, rodeada por nordestinos batalhadores que comemoraram a derrota dela exibida no telão. Talvez ele soubesse que eu sou uma pacifista que, contraditoriamente, apoia a luta de classes. Talvez, não. Porque um dia desses, entre os vídeos que ele me enviou, o último era uma sátira desrespeitosa envolvendo o ex-presidente e a presidente deposta. Fui malcriada na resposta. Talvez ele seja um reacionário não assumido. Algumas coisas eu relevo, agora, posicionamento político de direita, não.  Já pensou eu dormindo com o inimigo?

O Relojoeiro

Comprei um relógio de parede enorme pra mãe poder enxergar as horas. A compra foi meio azarada. Os ponteiros não andavam. Tive que trocar. Foi importado da China. Como não encontrei modelo melhor, pendurei o tal num gancho colado no azulejo. Dias passados, fui avisada através do zap: o Tico tinha derrubado o relógio e o vidro se espatifado. Tive vontade de devolver o infeliz pras ruas. Eu ainda tava pagando o treco. Coitado do gato, a culpa não foi dele. O gancho tinha se descolado da parede. Com o vidro quebrado, os ponteiros pararam. Depois de bater cabeça pelo bairro, tive a indicação de um relojoeiro. Um quartinho espremido entre uma casa e a padaria. Nunca que eu ia perceber. Um velhinho alto, encorpado e sorrindente escutou minha queixa. Alisou e deu uma erguida no ponteiro dos segundos e pronto! O relógio voltou a funcionar. Não cobrou, era cortesia. Semanas se passaram. A faxineira esbarrou com um pano e o ponteiro dos minutos despencou. Voltei no relojoeiro. Seu Luis se livrou da lupa e levantou-se sorridente e pesadão da bancada. Enquanto ele esticava os ponteiros como se fossem bigodes, perguntei como ele tinha aprendido a consertar relógio e quem ia dar continuidade ao seu ofício. Com a face iluminada, contou que aos 17 anos trocou a carteira assinada por um bico numa relojoaria pra ganhar uns trocados a mais. Após cinco anos, montou o próprio negócio. Ganhou dinheiro porque naquele tempo mexia em relógio caro, tipo Rolex. Teve três filhas e dois meninos. O caçula herdou o talento. Me separei da mãe dele, mas dele não me separei um único dia. Trazia o menino pra loja e ali ele foi aprendendo. O filho ficou bom no que fazia, estudou na faculdade, passou a consertar relógios de ponto pras indústrias. Tava bem de vida, até descobrir um caroço na cabeça e morrer aos 35 anos. É duro sobreviver a um filho, falou. Sei bem como é, pensei. Também me lembrei do meu pai que, ao se separar de mãe, separou-se de mim e do meu irmão. Nunca mais o vimos. Não lhe herdei o ofício, só um sentimento de que não fui suficientemente boa e, por isso, mereci ser abandonada. Olhei pro sorriso de criança do Seu Luis e entendi que meu pai podia ter feito outra escolha, sem prejuízo da sua liberdade. A relojoaria vai acabar quando o relojoeiro terminar sua vida. Ele tem oitenta e três anos, a idade do meu pai. Será que ele ainda está vivo?

A Fotografia

As nossas fotos estão condenadas a ficarem justapostas. Nunca vão retratar um casal. Foi dessa forma que ele nos mostrou em seu celular enquanto conversávamos bem embaixo da caixa de som. Eu sorria, mas por dentro alguma coisa se quebrava. Um pouco antes, sobre o nosso futuro, ele tinha dito um “cê que decide”. Talvez por se sentir em desvantagem de não ser dono do próprio nariz. Pois é, tem gente assim, acorrentada. Acho que ele não contava que eu decidisse renunciar à nossa história. Porque ele permaneceu por ali, sorrindo e falando, a pressa e a inquietação anteriores acalmadas pela conferência do celular. Foi quando eu mirei seus olhos. Normalmente são castanhos. Naquele instante estavam da cor de esmeraldas. Vai que fosse reflexo da camisa? Só que não, a peça era azul marinho, escolha minha. Ao nos despedirmos, ele não sabia, mas eu, sim. Era nossa última vez. Quando a notícia se espalhou, os profetas do caos opinaram que era hora de eu deixar pra trás os amores inacabados e as histórias enroladas. Os espiritualistas tentaram me consolar: um dia eu entenderia o porquê, enquanto isso, eu que resgatasse o amor próprio. Como pimenta nos olhos dos outros é refresco, optei pela estratégia de elencar os defeitos dele. Eram tantos que ultrapassavam os dedos das duas mãos. Mas aqueles olhos verdes continuavam assombrando, me lembrando o quanto eu lhe era querida. Por fim, a batida de martelo foi ele quem deu: pertencíamos a mundos diferentes. Ok, você venceu. Foi aí que eu entendi a alegoria das nossas fotos lado a lado e não num único retrato. Sabe aquela porta entreaberta que tanto podia se escancarar como bater? Então, ela se fechou. Fazer o quê, né?

Descascando cebolas

Fonte: Google Imagens

Quando nos encontramos 40 anos depois, a primeira coisa que me disse foi que eu continuava uma pessoa doce, como ela se lembrava de mim. Arregalei os olhos. Como assim? Moizinha, doce? Não bate com o jeito que eu imagino que me apresento. Uma kamikaze ou, numa versão mais suave que alguém me imputou, uma cangaceira com a espingarda em riste. Mas lá no miolo, sinto um medo danado de contato social. Com esse desalinho, eu só podia me enroscar com um cara à altura. Primeiro, eu vi sua luz. Não sei explicar o que é uma pessoa iluminada, mas era só isso que eu conseguia dizer dele. Acho que é o sorriso e também os olhos, que costumam ficar verdes quando está feliz e da cor de jabuticaba quando está tumultuado. Depois eu percebi sua rapidez de raciocínio que, vira e mexe, me deixa com cara de ué. Aí veio o senso de humor. Dia desses, mãe acordou por volta da meia noite porque eu tava gargalhando sozinha com uma gracinha que ele tinha feito. Para os desconhecidos ele tem uma fachada de bom moço. Educado, diz a amiga. Comigo ele fez questão de mostrar seu lado brucutu, decerto pra ver se eu aguentava. Fez uma pergunta e enquanto eu refletia pra responder, já estava na segunda, na terceira, na quarta, se movendo pra lá e pra cá, me levando junto e me deixando tonta. Só mais tarde é que eu me dei conta dos temas. Parecia entrevista ocupacional, não fosse o último quesito: religião, escolaridade, profissão, sexualidade. Deve ter tolerado minhas respostas porque me deixou ter acesso a mais uma camada, a de furacão. Pressinto que não é a última. Esses pensamentos me vieram quando eu estava elucubrando sobre a grande distância que existe entre aquilo que imaginamos ser, o que aparentamos para o outro e a verdade de nosso miolo. Vida complicada, sô!

Dando uma de Teresinha

Fonte: Youtube – Tom Jobim – Luiza – Piano

Dia desses, olhei pra trás pra acertar as contas com a imagem infantil do meu passado. Que pegou carona na escolha dos meus amores de antes e de agora. Bateu uma vontade de falar sobre eles, então aqui vai. O primeiro me chegou como quem vem me resgatar, trouxe seu sorriso deslumbrante, trouxe seus amigos de bar. Me contou suas ideias e a vontade de o mundo mudar. Me incentivou a estudar, me chamava de inteligente. Como eu não sabia nada, fiquei dele muito afim, eu estava tão encantada e, apressada, eu disse sim. O segundo me chegou como quem chega de um lar, trouxe um sonho de família tão difícil de alcançar. Indagou minha ideologia. E elogiou minha comida. Acenou com um para sempre, me chamava de querida. Me encontrou tão vulnerável, que conquistou minha atenção. Tinha um jeito adorável e, contente, eu arrisquei um por que não? O terceiro me chegou como quem chega sem ser esperado. Ele não me trouxe nada, também nada perguntou. Não quis saber do meu passado. Nem sobre o dele me contou. Me dedica suas canções. E me chama de amor. Foi chegando de mansinho, me envolvendo com sua atração, foi endoidando meus sentidos, se entranhou no meu coração. Claro que os três têm em comum mais do que os olhos esverdeados. Aos dois primeiros sou grata por terem me dado suporte para eu ser a pessoa que sou hoje. O terceiro é uma porta entreaberta, nunca se sabe se a ventania vai fechar ou escancarar de vez. O que eu tenho a dizer é que ele me deu oportunidade para eu escrever outro desfecho para minha história. A ele eu entrego meu amor de hoje. É só isso, sabem?