Carta para o Futuro Amor


Meu amor, antes de eu chama-lo por esse tratamento carinhoso e de você decidir-se pelo imponderável, é bom saber que apito eu toco. A bem dizer, sou ruim com notas musicais e com toda essa parte sensível da experiência humana. Dizem que estou mais para trator. É e não é. Vamos lá. Eu não sei de que lado do mundo você virá, mas uma coisa eu lhe digo: não vou viver a sua vida. Podemos fazer os nossos mundos se encontrar e tirar o melhor proveito da nossa diferença. Sim, paixão, porque uma das minhas poucas certezas é que sei que sentimos, pensamos e agimos de formas muito distintas. Saiba que eu sou uma encrenqueira oficial. Sou de escrever com letras de sangue. E você deverá estar preparado para discernir quando eu estou com a razão e quando estou fazendo espetáculo. E me ajudar. Não vim equipada com manual de instrução e, às vezes, eu me canso de mim. Mas eu espero que a recíproca não seja verdadeira, que você seja meu leme. Gosto de forrozear. Tai um negócio problemático. Quase posso adivinhar que você não sabe dançar. Não é nada pessoal. Poucos homens sabem. E pelas estatísticas é pouco provável que eu seja agraciada com a companhia de um homem, que dirá um que dance bem. Você vai ter que confiar em mim. Confiar que eu saiba diferenciar um par que se comporta como cavalheiro de outro com ares de safado. Se eu me apertar, prometo pedir socorro. Vai pintar ciúme, eu sei. Mas pense se as nossas posições fossem invertidas. Você gostaria de ser cerceado nos seus prazeres? Não vou nem disfarçar: sou muito ciumenta. Por outro lado, lhe dou um voto de confiança incondicional. Não mexo no seu celular, não ligo pra saber onde ou com quem você está, não controlo com quem você conversa nem checo a fatura do seu cartão de crédito. Mas seu eu intuir que estou sendo passada para trás, meu bem, eu lhe viro as costas pra nunca mais. Não importa o custo emocional que vai ter pra mim. Não me vingo, embora eu vá desejar, do fundo do meu coração, que o universo lhe retribua tudo o que você fez. Seja o bem ou o mal.

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Vamos de Pisadinha?

A Pisadinha é uma variação do forró moderno. Tudo o que sei sobre ela, aprendi por ouvido e com o molejo de bons parceiros. Dizem que é uma mistura do fandango gaúcho com as batidas do axé, sei lá. Sua característica é ter uma sonoridade bem marcada pela bateria com o acompanhamento frenético da sanfona. Essa combinação traz uma musicalidade que incorpora trechos mais pausados com outros de agitação total. Se é ritmo bom para coreografias de passos individuais, é bem difícil dançar com um par. Já tentei ensinar alguns homens, sem sucesso. Depende de ter ouvido pra seguir a marcação. Primeiro a gente tem que seguir a batida da bateria. O tempo entre um batuque e outro é longo, então o passo deve ser largo para o lado. No primeiro toque da baqueta se dá um passo com o pé direito, ao segundo toque, o pé esquerdo se junta ao outro. E vai se andando de lado. No repicar dos  tambores, a gente dá uma chacoalhada com os quadris que é pra ter gingado, senão fica parecendo poste andando. O segredo é requebrar neste tempo entre uma batida e outra quando entra o som da sanfona. As notas do instrumento são milesegundos mais curtas que as da bateria, dai que a gente tem de rebolar segundo as notas da sanfona, mas dentro do tempo da batida das baquetas. O resultado é bonito, gostoso, mas precisa de muita coordenação motora e auditiva. Quando a gente fica craque, já pode fazer giros. Ai que vem o drama. A maioria dos parceiros fazem o giro padrão que é de passo largo e rápido, só que pra girar na pisadinha tem-se que encaixar aquela estrutura de passos – que já é de encaixe – dentro do padrão do giro. Pra isso é preciso girar mais devagar, colocando até dois tempos da pisadinha dentro de um tempo do giro. Com todo esse esforço físico é dureza dançar mais do que três músicas. Enquanto que sozinha, já cheguei a dançar até seis canções, porque não se tem a sobrecarga de coordenar com o par. Aliás, poucas bandas tocam o ritmo dentro dos salões convencionais que frequento, falam que é preciso um baterista experiente, não sei.  Da minha parte, acho que faz diferença um tecladista bom de solo. Pra se ter uma ideia do gênero musical, é só acompanhar o hit “Se mordendo de raiva”, tocado pelos Barões da Pisadinha e pelos músicos do Xand Avião. A batida dos Barões é mais seca, metálica, já a batida dos Aviões é mais acústica. Prefiro o som e a voz do Xand por serem mais harmônicos. Ah, para os ortodoxos que estão acostumados com letras cabeça, sugiro se ligar apenas no swing. Tudo isso pra dizer que se você leva a sério a dança, mesmo a de salão, não esquenta cadeira. Num é?

A Dançarina

Se tem uma coisa que me deixa irada é homem confundir salão de baile com puteiro, principalmente se a mulher estiver sozinha, meu caso. Nem bem pus o pé no local, o camarada me convidou pra dançar. Bom, dançar é força de expressão. O sujeito não sabia o que fazer com os pés e chacoalhava o corpo feito uma britadeira. Seu braço deu a volta inteira no meu corpo com pressão de socorrista de Samu. Com meu antebraço, eu o empurrava, impedindo que ele colasse seu corpo ao meu. Parecia uma luta. Falou umas palavras ininteligíveis umas três vezes. Fiz sinal que não entendia, porque o infeliz fazia grunhidos embaixo da caixa de som. Na terceira vez, ele me dispensou no meio da música. Na seleção seguinte, outro moço me tirou. Arrocha é um ritmo aeróbico, gostoso de dançar solto, mas o tal só sabia dar dois passos pra lá e pra cá, sem sair do lugar. Tentei arrastá-lo, mas ele usava âncoras nos tornozelos. Só que sabia o que fazer pra colar o rosto no meu, outra mania que detesto. Trocar fluídos é coisa que a gente faz com quem se tem intimidade. O pobre cansou de segurar minha mão na altura, posição correta pra direcionar a dama e deslizou seu braço pra baixo. Sempre desconfio dessa manobra. Resolvi imitar a falta de tônus dele e relaxei meu corpo. Imediatamente, ele entrou em alerta, enrijecendo o dele. Ainda bem que os músicos tinham consideração e só tocavam três músicas por vez. Na hora da dança no escurinho, rejeitei uns cinco rapazes. Não sei porque, com tanta mulher dando sopa, eles resolvem se encasquetar comigo. O engraçadinho se aproximou, bêbado de dar dó. Avisei que não dançava lenta, que ele me tirasse no forró. Ele não sabia forró e nem sabia dançar, disse, mas queria dar uns passos agarradinho comigo. Então nós não vamos dançar, expliquei. Insistia no convite e diante das minhas recusas fazia biquinho de amuado. Me diga, como é que eu posso me interessar num cara desses? E olhe, ele não era de se jogar fora. E nem eu costumo ser indelicada, mas procurei o segurança com os olhos. Por fim, ele aceitou meu não. De resto, encontrei bons parceiros nas seleções seguintes. Mas o ponto alto da noite foi a camaradagem de duas mulheres. Quando entrou a dança dos passinhos com músicas de flash back, eu me alinhei ao lado de uma moça. Na segunda coreografia, que tinha giros e meio giros, ela percebeu que eu me embaraçava. Fiz menção de desistir e ela me impediu. Você consegue, acompanha comigo. E começou a marcar os passos em voz alta. Na terceira repetição, finalmente entendi os movimentos. Pensa em alguém feliz com a conquista? A coreografia seguinte também era rebuscada. Pacientemente, ela foi recitando o passos até eu pegar o jeito. Uhuuu! Agora já conheço cinco coreografias. Só falta aquela que o cowboy lidera, mas aí eu já estava à mesa curtindo meus avanços. A segunda mulher estava sentada ao meu lado. Pedi-lhe o favor de dar uma olhada nas minhas coisas quando eu fosse dançar. Não era pra ela vigiar, só ficar ligada se não sentava outra pessoa no meu lugar. Curiosamente, quando voltei de uma rodada encontrei uma moça ali. Poderia estar descansando, sei lá, mas uma abusada. Então, minha vizinha de mesa estava voltando a frequentar bailes, depois de longo tempo que estivera ausente do país. Como eu, não morava muito perto, mas gostava daqueles lugares populares. E de alto astral, completei. Sim, era melhor que ficar de pijama em casa assistindo TV. Me lembrei das últimas semanas em que, presa de uma melancolia sem fim, eu já estava de pijama e enrolada no cobertor às seis da tarde. Balancei a cabeça pra espantar os fantasmas e ganhei mais uma companheira de baile. Isso tudo enquanto caia uma chuva torrencial lá fora, que parou o tempo suficiente pra eu chegar ao carro seca, já no início de um novo dia. 

Fogo e água

Ela espalhou sobre a mesa as cinco cartas da rodada de perguntas. Eram cartas promissoras, disse. Embora a da Lua sinalizasse questões interiores para as quais eu deveria atentar. Mas ficou hesitante, parecendo buscar as melhores palavras para decifrar as duas cartas que estavam mais próximas de mim. Vai surgir um homem jovem com quem você vai compartilhar … PQP! Deixei de ouvi-la. Lembrei-me dos homens que fizeram parte da minha história amorosa na fração de segundos em que fiquei muda diante da taróloga. As lembranças estão registradas no texto intitulado O Tarot. Diante do meu desconcerto, a moça refez sua leitura. Olha, apontou as duas cartas mais próximas a mim, não precisa ser necessariamente um homem mais jovem. Pode ser alguém brincalhão, por isso a figura do mancebo. Mas vai acontecer. É uma troca. Vocês têm o que ensinar e aprender um com o outro. A minha resposta foi uma lágrima solitária. Faz um ano desde a leitura das cartas. E aconteceu. Entrou no cenário um homem uns bons anos mais novo do que eu. Não é alguém brincalhão, ao contrário, é raro ele dar um sorriso. Embora seja uma figura pública, demonstra pouco gingado para lidar com a exposição. O sujeito esteve por perto quando eu me quebrei. Antes disso até. Em todas as ocasiões que eu me coloquei sob suas vistas, buscando uma espécie de proteção. Fui parar numa de suas letras de música: se te conheço bem, você não é assim, você tá com cara de choro, esquece esse cara que tá na cara, ele não é pra você.  E o gato de menos de meio século, seria? Se o nosso encontro estava escrito porque se tratava de uma troca, é uma troca de opostos. O moço tem ideologia de direita, eu sou de esquerda. Ele é da noite, eu sou do dia. Ele vive cercado de gente, eu sou avessa ao social. Ele está construindo carreira, eu encerrei a minha. Ele sabe tocar e cantar, eu sei dançar e escrever. Ele é um multi-instrumentista, eu sequer sei pra que serve um contrabaixo. Aliás, ele é ambidestro, pega o violão ou a guitarra usando ora a mão direita ora a esquerda. Seria por esse motivo que ele se apresenta tão volúvel em seus posicionamentos? Me chama e depois me manda embora. Quando estou presente, me ignora, no virtual, segue os meus passos. Diz que de longe faço falta, de perto lhe faço raiva. Mas a sua mania que me tira do sério é a de me dar o troco na mesma moeda. Vai daí que vivemos em pé de guerra, mas não conseguimos nos despedir. Não é pra menos. Ele é do signo de água, de energia proativa, eu sou de fogo, de comportamento conservador e racional. Por isso, ele me acusa de ser fria, não ter sentimento, não saber o que é o amor. Do meu lado, eu o considero emocional, sem ter pés no chão. Então, num desses acasos, eu estava lá, fruindo o teatro, quando o texto me deu um soco no estômago. Há muitos caminhos diferentes na vida, mas todos levam a um só lugar, ao amor, à união, ao todo. O caminho disso é aquilo, e o monólogo ia fazendo várias analogias. Porém a única que memorizei foi: o caminho do fogo é a água. Minha reação foi uma lágrima solitária. Eu me lembrei da moça do Tarot e o seu pronunciamento: “vai acontecer”. O que será que eu tenho para aprender e ensinar?

Imagem: Pixabay

O silêncio da sereia

Sereia é uma figura da mitologia grega que personifica o fascínio e os perigos que o mar representa. É um ser metade mulher e metade peixe capaz de enfeitiçar os marujos até se afogarem. Nos dias atuais, serve como alusão a uma mulher sensual e inatingível. Como a musa, a sereia também é uma figura imaginária, sem pés fincados na realidade. Aliás, no lugar deles, ela exibe uma cauda. Era assim que ele me via. Uma vez, chegou a dizer que meus vestidos eram bonitos, mas não valorizavam o meu corpo. Fiquei indignada porque ao relembrar seus sucessivos figurinos, me perguntei o que ele entendia de moda. Depois, me ocorreu que ele tentava me enquadrar na sua expectativa fantasiosa, enquanto eu insistia em mostrar o corpo em linhas retas. E, claro, os pés bem aderidos ao chão, os quais me garantiam autonomia sem que eu precisasse me rastejar até e por ele. O camarada era – ainda é – um marinheiro talentoso. Foi isso o que me atraiu nele. Diferente dos idólatras de musa, que preferiram o virtual, ele se arriscou um pouco mais. Porém, cuidou de usar manobras para assegurar sua salvação. Lendo um fragmento de Franz Kafka, intitulado “O Silêncio das Sereias”, vi nossa história ali retratada. Para preservar-se da sereia, Ulisses tampou os ouvidos com cera e deixou-se amarrar ao mastro. O canto da sereia a tudo traspassava, mas o moço, cheio de confiança no estratagema da cera e dos nós, navegou seguro ao encontro da criatura. Quando Ulisses a encontrou, a potente cantora não cantou, porque acreditou que a este adversário, só o silêncio poderia arrebatar. Por seu lado, o navegante não ouviu o silêncio da feiticeira porque estava tão satisfeito com a crença positiva na cera e nos laços, que ele esqueceu todo o negócio do canto. Trata-se de um desencontro patrocinado por ilusões. Foi o que aconteceu conosco. À semelhança da sereia que possuía uma arma mais terrível do que seu canto – o seu silêncio – minhas tantas despedidas, essa é só mais uma, se demonstraram pelo meu calar diante de todos os meios pelos quais ele procurou contato. Por sua vez, ele parecia tão contente com sua escolha e decisão, que seguiu achando que eu me sujeitaria a qualquer coisa, até com os farelos do tempo surrupiado da sua agenda vigiada. Mas quero voltar ao que me atraiu nele. Sem dúvida, a mesma característica dos demais que vieram antes ou depois. Seu talento com a música o fez passar de uma criação para criador. Não, ele não compõe nem escreve, longe disso. A maior sentença que digitou no mensageiro foi um “bom dia”. No entanto, tem uma habilidade de harmonizar músicas de ritmos desiguais que só ouvindo. Da mesma forma é um exímio arranjador e algumas das canções tocadas e interpretadas por ele são mais eloquentes do que a versão original. Ninguém toca e canta melhor do que ele “Ziriguidum” e “Você só me faz feliz”. Eu poderia citar muitas outras, mas essas me são sagradas. Por esse motivo, ele é mais do que um músico, é um maestro. Também tem uma memória fantástica para letras, mas é um perdido quando se trata de lançar mão de outros registros mnêmicos. Certa oportunidade eu lhe perguntei como eu fazia para sair de uma determinada região assiduamente frequentada por ele, ao que respondeu que não tinha a menor noção de onde se encontrava. Só que conseguia arrancar letras e cifras do baú quando queria me provocar. Seus improvisos chegavam a ser divertidos. Quantos olhares de ué não flagrei dos músicos e vocalistas que o acompanhavam? O que vai de encontro à outra habilidade sua, a de compreender o termômetro dos frequentadores do baile e ajustar ritmo e repertório de bate e pronto. Foi com ele que eu aprendi a diferenciar um baile comum de um baile festa. Por isso, às vezes, eu tenho umas recaídas e apareço no espaço em que ele está tocando, só para experimentar um pouco da euforia contagiante que rola no local.  Daí que ele entende que quero voltar. Lembram-se do Ulisses que colocou cera nos tímpanos? Pois é, tal e qual. Depois de quase dois anos em que não nos falamos, ainda segue meus passos nas redes sociais. Não sei se ele tem paciência pra ler esse jornal, como se expressava a respeito dos meus bilhetes. Mas o que eu posso dizer de coração é que eu o amei muito. Isso mesmo, no tempo passado. Ele não é mais a última nem a primeira pessoa em quem eu penso antes de dormir e ao acordar. Hoje, essa posição é ocupada por outro. Só vão ficar as memórias. Elas ninguém pode apagar. E tal como no imbróglio do Kafka, em que a sereia desaparece aniquilada pelo fulgor dos grandes olhos de Ulisses e ele se safa incólume, eu saio de cena levando comigo a lembrança do brilho esverdeado do olhar de um homem apaixonado que toca a sua vida pra frente apesar dos arranhões narcísicos. Fim.

A velhice é uma merda, o amor é uma bosta

A amiga me mandou um vídeo em que o humorista Paulo Gustavo detona a velhice. A indignação da personagem era com a falta de memória, uma disfunção que chega sorrateira e quando a gente percebe, já estamos na soleira do alemão. Eu, por exemplo, tô às voltas com um artigo em inglês. Não bastasse a chatice de ler um texto acadêmico tal como “adaptações em avaliações educacionais de larga escala”, tenho que ficar consultando o tradutor porque meu repertório é de quarenta anos atrás, quando não havia a preocupação com avaliações educacionais padronizadas, muito menos avaliações que incluíssem estudantes com deficiência. Quando eu me toco que minha memória visual não é mais a mesma? Quando tenho que checar três vezes como se transcreve para o tradutor “strengths” porque o raio da palavra tem “s” e “t” demais. E quanto à memória, sei lá, de armazenamento? Essa é pior ainda. Me deu um branco diante da palavra “issue”, tendo que consultar seu significado em quatro momentos diferentes. Além do mais, a tradução depende do humor do tradutor porque às vezes pode significar “problema” e em outras, “questão”. Prefiro “problema”, que, aliás, não tenho com a memória remota.  Sou capaz de me lembrar da letra inteira de “Skyline Pigeon” do Elton John, do álbum de 1969: “Turn me loose from your hands, let me fly to distant lands, over green fields, trees and mountains, flowers and forest fountains. Home along the lanes of the skyway”. Lembrar e ainda por cima, cantar: “fly away, skyline pigeon, fly”. Dá pra você escutar daí minha voz esganiçada? Voltemos ao foco, pois como se vê, a atenção também não anda lá essas coisas. Eu já estava cheia de ter que dar conta do inglês e dos conceitos e ainda ter que organizá-los dentro de um projeto escrito de pós-graduação. Abri o celular e entrei no Instragram. Topei logo com uma postagem do Zack Magiezi sobre amor curta-metragem no qual ele fazia uma associação com amor líquido, convidando-nos a escrever uma frase do Bauman. Deste autor, eu não li nada, o que sei dele é puro clichê. Mas me lembrei, vejam só que memória remota bárbara, da letra do Djavan  de 1980, “Faltando Um Pedaço”: “O amor é como um raio, galopando em desafio, abre fendas, cobre vales, revolta as águas dos rios. Quem tentar seguir seu rastro se perderá no caminho, na pureza de um limão ou na solidão do espinho”. Amor combina mais com intensidade do que com duração, não é? Por falar em amor, acompanhei uma espécie de bate boca entre o padre Fábio de Melo e o Fabricio Carpinejar a respeito de amor e amizade. O padre escrevia que “a amizade é o último e definitivo estágio de todo grande amor”. Já o “influencer” abria seu texto com uma sentença taxativa: “não é verdade que o amor acaba e vira amizade” e continuava: “se houvesse ainda amizade, os desejos não morreriam sem socorro, as palavras não padeceriam pela falta de tato, o silêncio não se agravaria em omissão”. Gosto mais da versão do Carpinejar, mesmo porque me leva direto ao amor curta-metragem de três meses que relato em “Cupido Desastrado”, que fez o caminho inverso – veio de uma amizade que se transformou em amor e morreu por silêncio e omissão. Esse amor ainda é recente, de forma que não consigo me expressar em termos de ex, uma vez que preciso elaborar minha braveza em relação à forma como o moço usa seus talentos, me vendo nas suas letras de música ora com atração ora com repulsa. Não é que a incógnita do sujeito me fez lembrar de “Geni e o Zepelim”, letra do Chico Buarque de 1979? Foi então que brinquei com o verso de “acontece que a donzela (e isso era segredo dela) também tinha seus caprichos”, parafraseando e trocando “caprichos” por “mistérios”. É verdade que antes disso, outra ideia estivera latente. Uma memória de significante, uma ideia dolorida que, por não poder vir a tona, fez passar no seu lugar uma outra, mais aceitável. O caso foi que o moço havia feito chegar até a mim uma música do Mc Levin: “Quanto tempo eu perdi com esse amor de bosta”. Daí eu me lembrar do refrão “joga bosta na Geni, ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir, ela dá pra qualquer um, maldita Geni” que, recalcado pela precisão de ignorar a dor, só conseguiu dar passagem para o verso copiado. Refleti, então, que, talvez, a memória não seja questão de mero desgaste das funções neuronais, mas está ligada com um tanto de investimento libidinal de experiências passadas. Esse apego erótico explicaria porque as pessoas que são visitadas pelo alemão só se lembram dos primórdios de suas vivências, ficando sem presente e sem futuro. E vamos combinar, não tem nada de prazeroso em estudar avaliações educacionais adaptadas para estudantes com deficiência, né? Texto para o qual tenho que voltar depois de ter me perdido nessas divagações infames. Estou na página 9 de 30. Depois eu conto o que deu, tá bom?

Cupido desastrado

As musas são entidades da mitologia grega capazes de inspirar a criação artística e científica.  Não chegam a ser deusas, mas também não são plebeias. Toda mulher gostaria de ser uma musa para seu amado, inspirar seus projetos, ser o mote de suas vitórias, certo? Há controvérsias. Da minha parte, posso dizer que ser musa é uma grande fria. As aflições e a solidão que me impus por um amor desencontrado se transformaram nas minhas enrolações publicadas em rede social. Como um diário, elas iam apresentando a situação do momento: ora esperançosa ora enraivecida ora sinalizando desistência. Essas narrativas possibilitaram que durante um longo tempo eu fosse acompanhada a distância por um poeta e um cronista. Foi assim que nas tantas marés baixas do relacionamento, me achei nos versos do poeta: “hoje ela vai dançar, vai perfumada de noite, vai carregando umas dores”, uma alusão às tantas desilusões que narrei por meio das cenas de bailes. Já o cronista fazia com que eu enxergasse meu estado de alma na sua prosa: “só o reflexo azulado da tevê de companhia …vejo também uma redinha de proteção contra queda de animais, um pequeno cão, talvez um gato … classuda, a solidão mais elegante da América”. A janela que possibilitou sua visão descritiva tinha sido uma foto que eu publicara dias antes. É verdade que tudo pode não passar de imaginação, mas quem disse que o imaginário não cria realidades? Resolvi conhece-los pessoalmente. Sim, me apresentei, troquei três palavras com cada um, falei meu nome, recebi a dedicatória, não obtive nenhum sinal de reconhecimento da minha existência. Eu estivera delirando? Os avisos de que eu havia sido lembrada chegaram de forma ambígua. Um veio num verso de Demônio Colorido: “sua voz é tão suave, quando deveria ser mais arrogante, vadiando na minha cabeça, não me deixa um só instante”.  O outro escreveu em tom de reminiscência sobre o nosso começo, ele na infância de escritor e eu como a moça inocente do colegial: “quando eu vivo um momento feliz, não sei o que fazer com as mãos … penso na minha leveza quando estava no balanço do prédio na Vila das Mercês sonhando com pássaros”. O indício da lembrança revelado pelo nome do bairro onde resido. Para encurtar, aquele amor que me roubou três longos anos e rendeu tantos textos, não deu em nada. Só muita história pra lembrar. De repente, o inesperado aconteceu quando me deixei envolver por outra paixão, figura pública como o anterior. Dessa vez, a expectativa durou exatos três meses. Logo descobri o padrão de comportamento que já me era conhecido: sedução virtual e esquiva presencial. Aquele jogo foi abrindo um buraco no meu coração e agora, não mais tão inocente quanto o poeta me retratou, firmei os pés no chão para abreviar a agonia e lhe mandei uma mensagem. Nela, eu explicitava as nossas diferenças e os impedimentos. A resposta foi um lacônico “não conheço”. Meu choque demorou o tempo de eu entender que havia destruído a miragem do sujeito. A mulher por quem ele se dizia apaixonado não era aquela que se lhe apresentava com tintas reais. “Eu minto olhando nos seus olhos” foi uma direta que eu recebi através de um perfil amigo. “Para salvar a pele”, ele completou por meio de um colunista de internet. Não pude deixar de lhe expressar o meu pesar: uma pele sem alma é sobrevida, quase uma eutanásia. Acontece que o moço também tinha seus mistérios. Vim a descobrir que ele era um compositor e que a mulher cantada em suas letras, que vinham desde tempos atrás quando éramos apenas conhecidos, bem poderia ser eu. E como atraio aqueles que não conseguem assumir seu desejo, com este não seria diferente. O verso agressivo, desesperado da música pedia: “me deixa em paz, eu quero paz … eu não suporto, me deixa quieto que eu não quero confusão”. Fiquei pensando na coincidência entre os três homens, suas produções escritas e suas reações. Por que é que eles me queriam por perto no virtual e me evitavam no contato presencial? Conclui que talvez eles precisassem de uma personagem idealizada para compor seus cenários, de maneira que a minha aparição em carne e osso desconstruía seus castelos de areia. Como é conhecer a altura, ouvir o timbre da voz, perceber as rugas e a gramatura do corpo, dar com um rosto sem pintura, cabelos sem cosmética e adereços como óculos no seu modelo de inspiração? Por outro lado, se o que lhes interessava era um semblante, por que é que eles precisavam se apoiar numa figura encarnada? Como eu faço muitas perguntas e nunca obtenho respostas – a própria ilustração do discurso da histérica – fui instigada a refletir: como eu me colocava nisso tudo? Não precisei pensar muito para compreender. Era uma repetição, certamente. Mas o quê se repete? O meu encantamento por eles terem deixado de ser apenas criação para se tornarem criadores. Como eu, eles também sublimavam, faziam deslocamentos, instrumentalizavam seu desassossego transpondo-o para o ofício de escrever. Através deles eu me reencontrava comigo, Narciso no espelho da vida. O que vem bem a calhar com a máxima de outro poeta: “o amor é autossustentável”. Na minha interpretação desse aforismo, o amor independe do outro, porque o que amamos mesmo é um algo que nos é valioso e se encontra dentro do nosso íntimo e que, na maioria das vezes, desconhecemos. Ao fim, concluo que ser musa talvez seja um papel que me caiba bem, pois posso circular no imaginário de uns, me sentir amada e, ao mesmo tempo, continuar escondida nos porões do meu ser, presa aos meus grilhões de infância. Enquanto isso, eles criam versos, prosas e canções e eu escrevo essas enrolações.